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75 anos atrás: A incrível história de Hans e Sophie Scholl

Em 22 de fevereiro de 1953, há 75 anos, em Munique, na Alemanha, dois irmãos fizeram o sacrifício último no altar da convicção. Eles arriscaram e perderam, lutaram e fracassaram, mas não sem deixar uma última impressão.
 
O nome deles era Hans e Sophie Scholl.
 

O nascimento da Rosa Branca

A princípio entusiásticos sobre o Terceiro Reich, os irmãos logo perceberam a brutalidade e opressão de seu próprio governo. Pela época em que a Segunda Guerra Mundial iniciou, eles passaram de apoiadores à resistência. Ambos eram estudantes da Universidade de Munique quando fundaram a Rosa Branca, um movimento de resistência estudantil.
 
“Lutamos com nossas palavras,” Sophie disse; e em Junho de 1942, o primeiro panfleto anti-Nazi apareceu nas caixas de correio de Munique. Foi um eloquente apelo pela resistência e pela verdade, endereçado aos milhões de alemães que fecharam seus olhos às brutalidades perpetradas pelo seu ditador. Cada membro da Rosa Branca entendia o crime que estavam cometendo— alta traição — e sabia da punição aplicada aos ofensores. “Estávamos todos conscientes de que arriscávamos nossos pescoços,” disse um dos membros.
 
O primeiro panfleto foi seguido rapidamente pelo segundo. O texto destacava a deportação em massa e a matança dos judeus, falando que esses atos foram “um crime…sem paralelos em toda a história.” Um terceiro, quarto e quinto vieram em sequência, chegando as caixas de correio, cabines telefônicas e outros espaços públicos de Munique e região. “Hitler não poderá ganhar a guerra, só poderá prolonga-la,” insistiam os panfletos, enquanto a Alemanha enfrentava perdas assombrosas no Fronte Oriental durante a Batalha de Stalingrado.
 
Com cada panfleto, o risco de serem descobertos aumentava, enquanto a Gestapo dava novos passos na investigação da misteriosa Rosa Branca.
 
Mas, para os Scholls, o risco valia a pena. Ambos cresceram como luteranos, e haviam desenvolvido convicções profundas sobre a posição que os cristãos deveriam tomar contra a injustiça. Eles citavam as Escrituras, juntamente com os escritos de pensadores cristãos proeminentes em cada panfleto.
 
“Alguém, depois de tudo, tinha que começar a fazer algo,” disse Sophie, “O que escrevemos e dissemos era crido por muitas outras pessoas. Eles apenas não tiveram a coragem de se expressar como fizemos.”
 
Hans concordava: “É hora de que os cristãos se decidam a fazer algo…que vamos a mostrar como prova de resistência…quando este terror tiver acabado? Estaremos de mãos vazias. Não teremos resposta quando nos perguntarem: o que vocês fizeram sobre aquilo?”
 

Dias finais

O dia de 18 de fevereiro de 1943 amanheceu brilhante e ensolarado, enquanto Hans e Sophie se dirigiam a universidade. Hans levava uma maleta; Sophie, uma pasta. Dentro estavam quase 2 mil cópias de seu sexto panfleto.

Tudo pairava quieto enquanto chegavam, pois os estudantes estavam em horário de aula. Com seus corações batendo forte, e seus sapatos tocando no chão de mármore do salão, Hans e Sophie começaram a depositar pelo edifício um chamado à ação. Segundos antes que as portas das salas se abrissem, Sophie tomou os panfletos que sobravam e os jogou pelo balcão, fazendo com que voassem até o chão do térreo. Os irmãos foram vistos pelo zelador e presos no local.
 
A prisão foi seguida por quatro longos dias e noites de interrogação. A princípio, a acusação foi negada pelos dois, mas quando sólidas evidências foram colocadas em suas direções, eles confessaram e tomaram responsabilidade total, esperando proteger os outros membros da Rosa Branca. Infelizmente, um pedaço de papel que Hans tinha no bolso incriminava seu amigo, Christoph Probst, um membro ativo da resistência estudantil. Ele também foi preso e levado ao interrogatório.
 
O interrogador de Sophie reportou que:
 

Até o amargo final que tiveram, Sophie e Hans mantiveram um comportamento que pode-se dizer único. Ambos disseram que suas atividades tinham apenas um propósito: prevenir que uma calamidade ainda maior tomasse a Alemanha e, se possível, ajudar a salvar as vidas de centenas de milhares. Eles estavam convencidos de que seu sacrifício não era em vão.

Na segunda, 22 de fevereiro, Hans, Sophie e Christoph foram levados à Corte do Povo Germânico, conhecida por condenar a centenas de suspeitos de atividades subversivas. E o veredito foi lido.
 
Culpados.
 
Os irmãos foram imediatamente transferidos para a prisão de Stadelheim para serem executados por decapitação no mesmo dia. Hans e Sophie puderam receber uma breve visita de seus pais, mesmo que isso fosse contrário às regras da prisão. Eles choraram, se abraçaram uma última vez, e ouviram seu pai dizer: “estou orgulhoso de vocês dois.”
 
Toda a prisão e seus interrogadores ficaram profundamente comovidos e impressionados pela coragem de Hans e Sophie e por sua profunda fé em Deus, mesmo diante da morte, “Eles se revestiram de uma valentia incrível,” lembrou um dos guardas.
 
Às 5 da tarde, Sophie foi levada à câmara de execução. Suas supostas últimas palavras foram: “Deus, tu és meu refúgio na eternidade.”
 
Hans foi levado em seguida. Com seu último fôlego, ele gritou uma última palavra de resistência: “Vida longa à liberdade!”
 

Nos lembraremos

Hans e Sophie acreditavam na liberdade para toda a humanidade, e na importância de se falar a verdade. O versículo favorito de Sophie era Tiago 1:22: “Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes.”
 
Hoje, 75 anos depois, os cristãos ainda precisam ser praticantes da Palavra.
 
O anti-semitismo está crescendo. Atos de genocídio ocorrem todos os dias. Mais de 27 milhões de pessoas ainda são escravizadas, tanto em tráfico laboral quanto sexual. Milhões de bebês são mortos legalmente ano após ano. As liberdades religiosas e de expressão estão sendo retiradas paulatinamente, e cristãos ao redor do mundo estão sendo torturados e mortos pela causa de Cristo todos os dias.
 
Eu vejo, do meu lado, cristãos com a habilidade e o potencial de falar a verdade e lutar por justiça. Mas em vez de ação, encontro frequentemente apatia. Obscurecer o chamado de fazer a diferença é medo. Medo do quanto vai nos custar. Medo de ser ridicularizado. Medo da perseguição. Medo de ficar sozinho.
 
“Como podemos esperar que a justiça prevaleça,” disse Sophie “quando dificilmente alguém se dispõe a se entregar por uma causa justa?”
 
Em nossa cultura contemporânea, a pressão por se conformar ao status quo é gigante. É preciso ter uma coragem imensa para ser o primeiro a se posicionar e falar. Mas, às vezes, tudo que se precisa para desencadear uma mudança é que a primeira pessoa se posicione. Em seus últimos momentos juntos, Sophie disse aos seus pais que, “o que fizemos vai criar ondas.” Nossas ações podem ter o mesmo efeito. Quando alguém fala, e outro se junta, o movimento da água vira uma onda, e a onda transborda ainda além.
 
Após a morte de Hans e Sophie, e apesar de estar mais cientes que nunca do risco, os membros restantes da Rosa Branca lançaram mais um panfleto. Ele chegou ainda mais longe e alcançou ainda mais indivíduos que os anteriores. E tinha escrito em negrito: “Apesar de tudo, o espírito deles vive!”
Que o espírito deles viva em nossa geração, enquanto nós — citando Sophie — “Nos levantamos pelo que acreditamos, ainda que isso signifique se levantar sozinho.”
 
Nota do tradutor: A história dos Scholl também é contada no excelente docudrama ‘Uma mulher contra Hitler’ (Sophie Scholl: The final days), de 2005.
 

Artigo de Sara Barrat para o The Gospel Coalition. Traduzido por Rilson Guedes. Sara Barrat tem 18 anos e escreve para o theRebelution.com. Você pode encontrá-la também no Facebook.