Início » Black Mirror não fala apenas sobre tecnologia. Fala sobre nós mesmos.

Black Mirror não fala apenas sobre tecnologia. Fala sobre nós mesmos.

Black Mirror é uma série de televisão britânica, criada por Charlie Brooker, que estreou em 2011 (a quarta temporada foi lançada nesta sexta 29). A série se tornou uma das maiores franquias de sucesso de ficção-científica (sci-fi) dos últimos tempos, logo após a Netflix começar a produzir o programa. Inspirada em The Twilight Zone, seu criador Brooker descreveu a série como sendo uma combinação de ‘sátira, tecnologia, absurdo, e uma pitada de surpresa.’

Críticos tem feito a observação de como o programa se coloca ‘entre o prazeroso e o desconfortável’ e ‘é a união de maravilha com horror.’

De fato, Black Mirror faz um trabalho de mestre ao mostrar em detalhes perturbadores as diferentes formas em que a tecnologia está moldando a sociedade. E, apesar de ser um programa bastante sombrio e que não foi produzido para um consumidor casual, Black Mirror consegue ser engajante e atraente porque fala de forma direta sobre nossa forma de viver diária e aponta para a sua direção num futuro próximo.

Quando nossos aparelhos são desligados, nossas telas se tornam literalmente ‘espelhos negros’ (black mirror, em inglês) pelas quais podemos nos ver.

Quando nossos aparelhos são desligados, nossas telas se tornam literalmente ‘espelhos negros’ (black mirror, em inglês) pelas quais podemos nos ver.

O lado negro da tecnologia

Avanços tecnológicos prometem trazer os sonhos à vida, mas Black Mirror mostra vívidamente como esses sonhos podem virar pesadelos. A tecnologia é mais neutra que má, mas é incrivelmente poderosa. Assim como o dinheiro é neutro e poderoso (o amor ao dinheiro, afinal, é ‘a raiz de todos os males,’ 1 Tm 6:10), a tecnologia age da mesma forma. Tanto o dinheiro como a tecnologia possuem uma ligação direta com nossos desejos — bons ou maus- e ambos podem ser caminho de benção ou de maldição.

Mas Black Mirror não é apenas sobre tecnologia. O programa usa a tecnologia como um fundo temático mas também como um ‘espelho’ (mirror, em inglês) para as realidades da sociedade de hoje.

‘Cada episódio tem um caso diferente, um cenário diferente, até mesmo uma realidade diferente’, disse Brooker, ‘Mas eles são sobre como nós vivemos agora — e a maneira que podemos estar vivendo daqui a 10 minutos se não tivermos cuidado.’

O título Black Mirror nos dá a chave para o que assistiremos na série. Quando nossos aparelhos são desligados, nossas telas se tornam literalmente ‘espelhos negros’ (black mirror, em inglês) pelas quais podemos nos ver. Por mais poderosa que seja a tecnologia, seu maior poder é o de refletir quem somos e o que escolhemos ser. Como diz Brooker, ‘não temos um problema tecnológico, temos um problema humano’.

Na verdade, o vilão da série não é a tecnologia, nunca é a tecnologia. O problema é humano, porque está relacionado ao pecado. A tecnologia é apenas cúmplice. Mas o vilão é sempre humano. O lado negro encontrado na tecnologia de Black Mirror é apenas uma extensão das sombras dentro de nós.

‘Não temos um problema tecnológico, temos um problema humano’ diz Brooke.

Contos de advertência

Black Mirror fala diretamente sobre a sociedade moderna, mas também fala sobre o futuro próximo, a sociedade ‘daqui a 10 minutos’.

A maioria dos episódios termina de forma sombria: com isolamento, epifanias depressivas, famílias divididas, escravidão, cárcere, chantagem, adultério, morte e assassinato (‘San Junipero’ na terceira temporada é a única exceção). De certa maneira, Black Mirror é como o Livro de Juízes se ele se passasse no futuro, mostrando que a fonte de pecado flui mais de dentro que de fora. O refrão sinistro de Juízes — ‘cada um fazia o que parecia bem aos seus olhos’ (Juízes 17:6, 18:1, 19:1, 21:25) — pode servir também como resumo do abraço que a modernidade dá à tecnologia. Em um tempo em que muitos de nós saúdam as inovações tecnológicas com uma devoção quase religiosa (o último lançamento da Apple ou da Tesla, por exemplo), talvez seja a hora de exercitar mais a prudência.

Black Mirror nos lembra que a tecnologia revela quem somos, mas também é um agente de mudança pra quem a usa. Carregamos esses dispositivos em nossas mãos, mas as vezes somos nós que acabamos sendo mudados e moldados. E se não tomamos o devido cuidado, a tecnologia pode nos esgotar, nos isolar, nos escravizar e nos levar pra longe das pessoas e também de Deus. A tecnologia pode expulsar o silêncio de nossas vidas. Pode nos distrair da importância das pessoas que estão bem na nossa frente. Pode desumanizar os outros e nós mesmos. Pode criar dependências doentias. Pode se tornar um ídolo que tome o lugar de Deus. Ela pode nos fazer esquecer para quê e para onde Deus nos chamou.

Queremos acreditar que Black Mirror está muito distante da realidade, mas esses episódios nos expõem quem somos agora com sóbria claridade — e quem podemos ser um dia.

Tecnologia ultrapassando a teologia

Os universos distópicos criados em cada episódio de Black Mirror dá a Brooker a liberdade de explorar temas difíceis. Poucas redes de televisão fariam um programa centrado em racismo. Mas se o racismo é apresentado ‘de forma metafórica, num mundo quase-ficcional’, então não levantaria suspeitas.

Black Mirror toca temas como política, capitalismo, mídias sociais, propaganda, guerra, inteligência artificial, justiça criminal, privacidade, realidade virtual, imortalidade, e muito mais. Em cada episódio, questões morais difíceis são propostas para os personagens — e inevitavelmente para nós da audiência. A tecnologia pode ser neutra, mas as questões que ela levanta não são.

Como um pastor de jovens, sei que posso ficar rapidamente desinformado. As questões que meus estudantes estão enfrentando — muitas delas criadas pelas novas tecnologias — são implacáveis e chegam de forma frenética. Mas meus estudantes se encontram mal equipados para lidar com essas novas questões. É por isso que devemos tomar cuidado para que a tecnologia não ultrapasse a nossa teologia. Numa sociedade avançada tecnologicamente, não devemos consumir cegamente, mas combater o bom combate sabiamente. Sou grato a autores que tem provido recursos para equipar cristãos que navegam através de questões morais, espirituais e tecnológicas.

Questões difíceis são tratadas melhor não individualmente, mas em comunidade. Nós precisamos de mais pastores, teólogos, políticos, professores, estudantes, atletas, artistas, corporações e programas de TV para nos ajudar a descobrir as respostas. Não podemos antecipar cada cenário ou prever cada consequência negativa que iremos encontrar, mas uma série como Black Mirror traz alimento pra o cérebro e motivos pra pensar.

Tecnologia como uma ajuda e como um horror

Por mais que ela possa ser horrível ou maravilhosa, Tim Keller nos lembra que ‘a tecnologia é encomendada aos seres humanos pela Bíblia.’ Deus chama a humanidade a subjugar a terra em Gênesis 1, e ele dá a tecnologia como meio para o cumprimento de seu mandato (cultural).

A tecnologia fez maravilhas em todo o mundo. A roda e o automóvel nos deram mobilidade. A imprensa e a internet nos deram educação acessível. Smartphones e mídias sociais são ferramentas de comunicação. A tecnologia nos abençoou para que fôssemos mais efetivos, eficientes, produtivos e influentes.

Devemos continuar usando a tecnologia — computadores, projetores, websites, vídeos, podcasts, mídia social, aplicativos, e o que estiver chegando pela frente — como forma de expressar nosso amor à igreja e meio de alcançar o perdido. Mas, ao usarmos a tecnologia, não devemos ser ignorantes quanto a seus potenciais horrores.

Black Mirror não é uma série para ser assistida de uma vez só. Mas uma série para ser digerida lentamente, refletindo não apenas sobre o que nos é mostrado sobre o futuro, mas também como nosso passado é espelhado nela.


Artigo de Chris Li para o The Gospel Coalition. Traduzido por Rilson Guedes. Chris Li é diretor do Ministério de Estudos da Living Hope Community Church em Brea, California.


Marcações: