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O coronavírus pode matar o cristianismo confortável

Um dos efeitos potenciais do coronavírus no cristianismo é que a epidemia possivelmente matará o cristianismo consumista, pelo menos a curto prazo.

E ainda que temos certamente muito a lamentar sobre como a crise tem destruído vidas, economias e desvanecendo os planos de todo mundo de modo surpreendentemente rápido, o ataque do vírus ao cristianismo consumista pode ser algo que celebremos mais a frente.

Tendo isso em mente, aqui estão três formas pelas quais o coronavírus está matando o cristianismo confortável.

1. Despindo a igreja dos excessos

Não haverá mais locais pra fotos de Instagram, musicais polidos ou parquinhos para crianças em igrejas nesta Páscoa. A entrega de ovos de Páscoa e as artes dizendo ‘Ele ressuscitou’ estarão ausentes. Nada disso estará disponível para as pessoas que vão na igreja duas ou três vezes por ano. Meses de planejamento para conseguir criar a páscoa mais criativa e atrativa da cidade foram frustrados. E pastores por todos os lados estão tristes pelo rumo dos acontecimentos, mas eles não deveriam ficar assim.

E por que? Porque o coronavírus rapidamente jogou fora os excessos da igreja, todos os sinos e apetrechos, todos os pequenos prazeres que buscamos conseguir como se tivéssemos uma lista pra cumprir. O que sobrou foi o essencial sem enfeites: Jesus, a Palavra, a comunidade, a oração e o louvor. O que resta é uma realidade que a igreja não pode perder: que somos corpo de Cristo e que viveremos eternamente com Ele. As coisas se tornaram ásperas na forma em que fazemos a atividade da igreja – mas o que somos permanece vibrante como nunca.

Em um tweet no início do mês Duke Kwon refletiu: “E se Deus, através de sua estranha providência, está rebaixando a igreja americana para a simplicidade, despida do que não é essencial e renovada na sua identidade fundamental como povo de Deus?”

Entre outras coisas, esse ‘rebaixamento’ vai livrar muita gente – inclusive muitos pastores – da noção de que a igreja deve ser confortável e amigável para o consumidor dentro de um grande mercado de opções de entretenimento. Na quarentena do coronavírus, a experiência desajeitada e sem brilho da igreja não vai ser a opção mais confortável de como as pessoas poderão passar os seus domingos. Vai ser uma escolha contracultural. E isso é uma coisa boa.

2. Detonando a noção de fé domingueira

Para os cristãos domingueiros, cuja fé se define por algumas horas de seu domingo, o coronavírus é uma mudança de jogo. Numa época em que a experiência do domingo foi diminuída drasticamente para basicamente um vídeo do YouTube ou uma videoconferência (uma solução temporária e longe do ideal), os cristãos são forçados a considerar como deve ser a fé quando não se está na igreja.

Esta crise é uma ótima oportunidade para que os crentes reflitam sobre o que significa ser cristão cada dia da semana e em cada aspecto da vida. O que parece ser notavelmente cristão em um mundo onde aquilo que era mais característico para identidade de fé (ir pra igreja) se foi? A demanda nunca foi maior para que os cristãos sejam cristãos além do domingo.

As boas notícias são que já há muitas maneiras criativas pelas quais os cristãos estão conseguindo viver sua fé no meio desta crise. Nas próximas semanas e meses, quanto mais pessoas fiquem doentes ou amedrontadas, mais há necessidade dos cristãos se levantarem para o serviço.

Podemos orar para que os resultados dessa crise seja a renovada paixão pela qual os discípulos de Cristo viverão e amarão aos seus vizinhos, ao seu local de trabalho e as suas comunidades em quarentena – nos sete dias da semana.

3. Desafiando os cristãos para dar sem receber

Uma das maiores preocupações para as igrejas e pastores nesta época é a queda das ofertas congregacionais. Para os cristãos consumistas, ofertar pode ser mais difícil quando não se ‘recebe’ nada em retorno. Não há nenhum culto bem planejado e nenhum grupo de louvor pras crianças. Não tem lanche depois do culto nem música pra levantar os ânimos. Só um culto improvisado na tela do computador.

Mas, se os congregantes deixam de ofertar porque esperam algo em troca, isso só os expõe como cristãos consumistas – dando porque esperam receber. Mas não é assim que devemos ser, não é? A igreja não-ideal do momento não deveria ser uma desculpa para deixar de ofertar, só porque você não está sendo servido da mesma forma que antes. A igreja não é sobre consumidores recebendo serviços, é sobre cristãos servindo um ao outro, e edificando o corpo mesmo quando seja custoso, inconveniente e inconfortável.

Esse é o momento para que a generosidade verdadeira e fiel seja testada. Cristãos devem continuar ofertando, mesmo se as condições econômicas se tornarem piores. E eles devem também se levantar para o serviço, encontrando maneiras criativas (mesmo se forem dispendiosas), para saciar as necessidades daqueles que estão ao seu redor, especialmente os mais vulneráveis. A generosidade do povo de Deus para com os outros deve ser ainda mais importante nos próximos dias.

Coronavírus e o presente do desconforto

Escrevi meu livro Desconfortável (Uncomfortable, ainda sem tradução ao português) alguns anos atrás para desafiar os crentes a resistirem a sedução do cristianismo confortável e consumista, e em lugar disso se comprometerem a uma fé que é custosa, inconveniente e inconfortável. O desconforto é doloroso, com certeza, mas é um dom esclarecedor. A verdade é que ser um discípulo de Jesus não é algo fácil (Mt 16.24, Mc 8.34, Lc 14.27). O discipulado nunca foi pensado pra ser amigável ao consumidor. A igreja não foi criada pra ser confortável.

A epidemia do coronavírus está nos forçando a nos lembrar dessa verdade. Está nos removendo rapidamente de nosso vício pelo conforto, e nos levando a dependermos do Deus de Jacó como nossa fortaleza (Sl 46.7).

No desenrolar dessa crise, oro pra que haja uma igreja mais resiliente e duradoura, fortalecida pela chama do desconforto e fortificada pela dependência renovada em Jesus Cristo, nosso único conforto na vida e na morte. 


Escrito por Brett McCracken para o The Gospel Coalition. Traduzido e adaptado por Rilson Guedes para o Narniano.


O título original fala de cristianismo orientado para o consumidor (consumer christianity), mas o tradutor optou pelo termo ‘cristianismo confortável’ por acreditar que é um termo mais claro para o leitor brasileiro, e por ser um tema tratado durante o texto.

 


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