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Longe da apatia: A transcendência da moral em The Mandalorian

Aviso: O texto contém spoilers leves. 

Mesmo não sendo o personagem do título da esperada série da Disney+, chamada de The Mandalorian, o “Bebê Yoda” ganhou a internet. O criador da série, Jon Favreau, poderia ter baseado todo o marketing da série no personagem, que é um boneco fofo e que foi batizado com o nome do antigo Mestre Jedi da trilogia original de Star Wars, e se fizesse isso, ele teria sido bem sucedido. Mas ele não o fez. O Bebê Yoda foi cuidadosamente escondido até que apareceu finalmente em tela.  Isso aconteceu porque o alienígena verde tinha um papel muito grande pra desempenhar na história: o de desafio moral, e de catalisador, para o personagem título da série, o Mandaloriano.

Muitas vezes, no momento em que o Bebê Yoda aparece em tela, queremos que o programa seja sobre ele. Ele é fofo, ele nos é familiar (apesar de não ser, na verdade, o Yoda), ele não é complicado, e – mais importante de tudo – ele é inocente. O Mandaloriano (interpretado por Pedro Pascal), em contraste, é um personagem-sombra. Ele é interessante, mas vive por meio de ganhos injustos. Ele é um caçador de recompensas, um assassino, e além da armadura que faz ele parecer com um personagem conhecido da trilogia original, ele não nos é familiar. Nós nunca chegamos a ver o seu rosto. Enigmático, mas se comporta como vilão. Nas melhor das circunstâncias, os dois primeiros episódios de The Mandalorian constroem ele para ser um anti-herói de ocasião, e é exatamente a ocasião que explica porque essa história é sobre ele, e que tipo de história está sendo apresentada para a audiência.

Se passando nos anos seguintes a O Retorno dos Jedi e o colapso do Império, The Mandalorian coloca o foco da câmera nas sombras e no “cada homem” e no “cada mulher” do antigo Império – e da florescente Nova República. Grandes vitórias são ótimas, mas elas muitas vezes podem implicar em perdas para aqueles que vivem nas margens da sociedade. Para estas pessoas, a vitória celebrada pelos rebeldes não significa necessariamente uma mudança de guarda. A ideia que se passa, é que as dificuldades do mundo simplesmente mudaram para um em que os sindicatos mandam e os caçadores de recompensa andam sem restrições. O que parecia ser claramente o certo e o errado nos eventos anteriores a The Mandalorian (como são vistos na trilogia original) agora se tornam cinzas nestas história. Se você apenas assistir a série, você deve se perguntar porque era tão importante destronar o imperador.

The Mandalorian busca encher as lacunas sobre os locais onde as pessoas realmente moram. Em vez de se concentrar no herói da Rebelião, ou uma missão urgente e épica, ela pega alguém que está vivendo uma vida moralmente cinza e a tira das sombras, alguém que é apático a tudo além de sua própria sobrevivência e da religião mandaloriana que ele adotou para si mesmo. Quando o vemos pela primeira vez, a sua moralidade última, se é que ele tem uma, é o seu pragmatismo. Como um outro personagem diz sobre os caçadores de recompensa no episódio cinco: “Você quer ser um caçador de recompensas? Faça o melhor pra você, e saia vivo.” Ele não é importante para o grande cenário de eventos. Não existem grandes planos de estrela da morte para serem recuperados, não existem droids rebeldes que precisam ser encontrados, nenhuma linhagem Jedi secreta, absolutamente nada que seja central no personagem dele. Ele é um caçador de recompensas mandaloriano buscando pagar suas contas, e é isso.

Quando histórias se concentram em personagens não essenciais como neste caso, elas nos permitem ver como a vida nas margens podem deixar pessoas comuns diante do perigo do desvio moral. A tentação de cair na apatia moral, ou até mesmo na vilania, é maior quando você sente que não seja uma pessoa essencial para ‘o quadro geral’. Seja você alguém do Império ou da República em Star Wars, ou seja você alguém que trabalha 8 horas por dia pensando se você impacta algo além de si mesmo. The Mandalorian trata desse assunto deixando a câmera mostrar as sombras, e mostra como as cinzas morais e a apatia podem crescer e se solidificar numa pessoa.

Mas a ideia de existirem pessoas que não são importantes é uma mentira, e ninguém é assim. Se nos virmos desta maneira, podemos facilmente acreditar que nossas ações não impactam nada nem ninguém além de nossa esfera imediata. O certo e o errado se tornam apenas um caso de sobrevivência diária, as escolhas que poderiam ter grandes impactos se as tomássemos viram apenas subjetivas. Existe uma futilidade na vida nas sombras e na cinza moral que a acompanha. Nós que fazemos parte da gente comum sentimos que essa futilidade reside em nossa incapacidade de impactar os grandes eventos nacionais e mundiais. Parece que assistir o genocídio curdo na TV ou até as eleições nacionais são tudo em vão. Quando acreditamos na mentira de que não importamos, somos tentados a andar em áreas morais cinzas também. Podemos buscar apenas o nosso bem, preservar e proteger apenas que é nosso, agir do nosso jeito, orar e pensar de maneira apática para o mundo que nos rodeia. Mas o que vai, ou o que pode, nos despertar dessa apatia?

Para o Mandaloriano, foi um bebê.

The Mandalorian segue uma fórmula tradicional. Era uma vez um caçador de recompensas mandaloriano. Todo dia ele coletava recompensas e transformava isso em lucro. Até que um dia, a sua caça era uma criança, e quando ele viu aquela criança, tudo mudou…

Quando o caçador se depara com o Bebê Yoda em seu caminho, podemos pensar que essa criança é o que a gente pensa como ‘gente importante’, mas nenhuma informação nos é dada do porquê, e nem o Mandaloriano saberia responder isso. O que torna a história do Mandaloriano mais especial é que não sabemos se a história que o rodeia é tão especial. Nosso anti-herói tem que decidir se vai sair de sua apatia moral para a integridade moral sem nenhum conhecimento do que a criança representa, e isso é muito importante para o tipo de história que está sendo contada. No episódio três, numa mudança de rumo, vemos uma mudança no coração dele, uma convicção. O Mandaloriano vê sua consciência dizendo a ele através de algum sentido inato de que entregar aquela criança para a morte não era o correto, e é isso que move ele da apatia moral para a ação sacrificial, traindo a si mesmo por amor a outro pelo que (somos levados a acreditar) seja a primeira vez que ele faz isso por alguém.

Por suas ações, ele se dá conta de que o certo e o errado não são questões subjetivas às necessidades pessoais dele ou da religião mandaloriana, mas que transcendem a ambos. Ele projeta uma nova vida para si mesmo por nenhuma outra razão além do renovado senso moral.

E dar um passo para fora da apatia moral gera um efeito dominó. O passo que o leva a proteger uma vida no episódio três, o leva para o seguinte, o leva a proteger uma comunidade inteira no episódio quatro. Dessa forma percebemos, como C. S. Lewis escreveu em Cristianismo puro e simples, que “O Bem e o Mal aumentam ambos à velocidade dos juros compostos. E por isso que as pequenas decisões que eu ou você tomamos todos os dias têm tanta importância.” Uma decisão ativa de reconhecer a transcendência do bem e do mal leva o Mandaloriano para o seio da comunidade, para o relacionamento com outros. A sua obediência ao novo padrão moral será testada uma e outra vez, como vemos não só no episódio quatro, mas também no episódio cinco, onde ele volta as sombras morais para conseguir algum dinheiro, mas as consequências caem sobre ele. Ele vive traição, inimizade, isolamento e quase perde a criança a qual escolheu proteger.

As histórias que seguem padrões como os dessa série nos mostram que ninguém é realmente ‘não-importante’, elas nos deixam com a percepção de que ainda que o mundo seja grande, todos são importantes, não importa o seu nascimento, papel ou função. Elas comunicam a natureza objetiva do certo e do errado, que o certo é sempre o certo, e que o errado é sempre errado, não importa quem esteja mandando na galáxia em Star Wars ou quem esteja morando na casa presidencial na vida real. É por isso que The Mandalorian funciona tão bem como história, por isso que o Mandaloriano é o personagem principal e é por isso que o Bebê Yoda é o cataclismo da mudança. Podemos não ser inocentes como aquela criança, mas lutamos todos os dias contra a apatia moral. Só quando passamos a perceber a transcendência da aplicação moral no dia a dia, é que podemos seguir nossa consciência e mudar nossas ações. Talvez isso seja algo importante para refletirmos na próxima vez que vermos um meme com o Bebê Yoda.


Por K. B. Hoyle para o Christ and Pop Culture. Traduzido por Rilson Guedes para o Narniano.  


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