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Os super-heróis na visão de mundo cristã

“Os quadrinhos são a nova Bíblia” declarou recentemente a crítica Anne Bilson, “e seus devotos nunca se cansam de ver seus ídolos salvando o mundo.” A elevação que ela faz do status dos quadrinhos para semi-canônicos é exagerada, mas acredito que Anne se aproxima da verdade ao sugerir que parte do atrativo dos quadrinhos é a sua abertura ao sobrenatural. 

Numa cultura cada vez mais secular, as revistas em quadrinhos expõem ousados vislumbres do sacrifício sobrenatural e da maravilha da salvação através de suas telas e quadros. Superman e Thor desceram dos céus com poderes divinos, enquanto heróis como o Capitão América e o Homem de Ferro ganham forças sobre-humanas através de avanços na ciência e na tecnologia que estão além das capacidades humanas atuais. 

Através do último século, os quadrinhos e suas adaptações ao cinema produziram um intenso fluxo de metanarrativas sobrenaturais de super-heróis que são chamados continuamente a salvarem o mundo, e atualmente, as pessoas estão consumindo esses contos aos milhões. 

Resíduos de uma visão de mundo mais coerente

Mas como os cristãos deveriam se relacionar com os quadrinhos e com os filmes de super-heróis?

Para muitos cristãos, a tentação reside em se relacionar numa forma que eu identifico como uma ‘leitura rasa’ desses artefatos culturais, buscando por conexões superficiais entre a Bíblia e os contos de super-heróis. Pastores que se envolvem nessas leituras rasas podem construir sermões inteiros baseados nos últimos filmes ou se sentem atraídos a jogar referências de filmes dentro da mensagem – tudo pra parecer relevantes. Mas isso não é engajamento cultural autêntico. Na maioria das vezes, é apropriação cultural sem senso crítico. O engajamento cristão com a cultura deve cavar mais profundo do que as meras conexões que podem ser encontradas na superfície, e lutar contra as visões de mundo conflitantes que são a base desses artefatos culturais. 

Em ‘A arte e a Bíblia’, Francis Schaeffer distingue entre quatro tipos de artistas, e este exemplo pode nos ajudar a nos guiar na maneira em que nos engajamos com os quadrinhos e filmes de super-heróis. O primeiro tipo de artista que Schaeffer descreve é o cristão que cria arte desde uma visão de mundo cristã. O segundo é o não-cristão que cria a partir de uma visão de mundo não-cristã. O terceiro é o não-cristão que cria a partir de resíduos de um visão de mundo cristão. E o quarto é o artista cristão que não consegue entender a visão de mundo cristão, e como resultado, cria uma arte conflituosa e contraditória.

Quando se trata de quadrinhos e filmes de super-heróis, a maioria do que vemos se enquadra no terceiro tipo de artista. O não-cristão cuja criação está repleta de resíduos de uma visão de mundo bíblica. Isso pode ser, em parte, porque os criadores de Superman e de muitos outros super-heróis tinham raízes judaicas, e muitos temas do Antigo Testamento foram incluídas nos quadrinhos em suas primeiras histórias. Qualquer que seja o motivo, quase toda história em quadrinhos parte da metarrativa de que é necessário um sacrifício sobrenatural para que o mundo possa ser salvo.

O que funciona nessas narrativas superpoderosas funciona exatamente porque o artista se utiliza de temas emprestados da visão de mundo coerente exposta na Bíblia. O não-crente pode se maravilhar nessas histórias de salvação do mundo e pode experimentar temporariamente um sentimento de reverência e admiração. E ainda assim, qualquer bondade ou verdade que o incrédulo experimente neste vislumbre se torna, nas palavras de João Calvino, “como o caminhante que está no meio do campo: vê por um momento em ampla e vasta extensão a coruscação do relâmpago noturno, mas, antes que possa mover o pé, desvanecida de repente a visão, é de novo tragado pela escuridão da noite, de sorte que bem longe está de ser conduzido pelo caminho mercê de tal ajuda.”

Fragmentos quebrados de uma metanarrativa ainda mais gloriosa

Apesar disso, o crente é capaz de ver os resíduos da visão de mundo cristã que estão escondidas por debaixo da superfície dessas histórias. As melhores histórias humanas são apenas emprestadas da grande história que Deus está criando. Os melhores momentos artísticos da humanidade sempre relevam traços da grande história que Deus está desenvolvendo no mundo. Eles são placas emprestadas e disfarçadas que apontam e nos fazem ansiar pela a história que o Criador está escrevendo, e que é muito maior do que nós mesmos. Isso vale tanto para os quadrinhos como para outras expressões de narrativa ou arte. “Viemos de Deus”, apontou Tolkien (escritor de O Senhor dos Anéis) uma vez, “então é inevitável que os mitos criados por nós, apesar de conterem erros, reflitam fragmentos da verdadeira luz, da verdade eterna que está em Deus.”
 
Se falharmos em ver que esses mitos servem para nos apontar a algo muito maior, então – nas palavras de C. S. Lewis – “eles sempre nos trairão. Porque eles não são a coisa em si mesmo. Eles são o aroma da flor que ainda não encontramos. O eco de uma canção que nunca escutamos.” As narrativas que vemos em quadrinhos e filmes de super-herói são pistas que devem apontar a atenção do crente para a metanarrativa de Deus no mundo.

Bases para o engajamento com outras visões de mundo

Então, de que formas práticas podemos aprender a vislumbrar os resíduos da visão de mundo bíblica nos melhores mitos humanos? Aqui está um modelo simples, baseado na narrativa em quatro atos da criação, queda, redenção e nova criação, que usei para ajudar a minhas crianças a lidarem com as visões de mundo apresentadas em filmes e livros de super-herói, ficção científica e fantasia.
 
1. Deus criou o mundo com beleza e bondade, e ele nos chama a apreciarmos a ambos. O que você viu nesta história que refletiu a bondade e a beleza criadas por Deus? Deus não apenas criou um universo que funciona, Ele criou um universo que é lindo, e criou a seres humanos capazes de apreciar e de criar beleza. Onde você vislumbrou beleza neste livro ou filme? Ele apresenta o sonho de um glorioso passado que foi perdido? Se sim, como era esta passado?
 
2. O mundo foi corroído pelo pecado, e esta corrupção se estende às obras de arte que criamos. O que há neste filme ou livro que não é digno de imitação? O que os escritores e criadores estavam tentando nos dizer que era falso ou apenas verdade em partes? Qual é a parte do enredo dessa história que os heróis estão lutando para redimir ou reparar?
 
3. O mundo precisa de redenção, e a melhor arte tanto se recusa a menosprezar o nosso estado pecaminoso, quanto inclui temas redentivos que ecoam o plano de Deus de redimir este mundo. O que esta história apresenta como uma resposta para a transgressão? Como os heróis redimem ou reparam a transgressão? Como a redenção foi adquirida ou aplicada? O que isto nos diz sobre a visão de mundo dos roteiristas? Os roteiristas foram consistentes ou há conflitos em sua visão de mundo?
 
4. Deus prometeu fazer uma nova Terra, e cada coração humano anseia pelo mundo onde tudo é corrigido. Qual é a visão de vida que esse livro ou filme promete? O que o herói espera do futuro? O que esta história te faz desejar? Que anseios pelo futuro essa história despertou em você?
 
Então, são ‘os quadrinhos…a nova Bíblia’?
 
Nem de perto – mas os quadrinhos e os filmes de super-herói proveem oportunidades de vislumbrar a coerência da Bíblia quando examinamos as formas em que estes artefatos culturais trabalham sobre os resíduos da ainda mais maravilhosa verdade de Deus.
 

Escrito por Timothy Paul Jones. Traduzido por Rilson Guedes para o Narniano.


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