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Para sempre, agora

Você, caro leitor, já teve a experiência de ouvir uma música despretensiosamente e de repente passar a ter a sensação de que essa música é a música da sua vida? Bom, há três meses passei por isso.

São vários os motivos que levam alguém a eleger uma canção como algo que faz parte de sua existência. Vou compartilhar aqui e agora os meus: a música da minha vida é ritmada e tem uma melodia incrível. É tão agradável aos meus ouvidos que eles não se cansam de ouvi-la. Além disso, ela me foi apresentada por uma pessoa que admiro muito e que sempre consegue me surpreender em tudo, inclusive por sua sensibilidade e bom gosto em relação às artes. Por fim, a música que me motivou a escrever esse texto explora um tema que ao longo da história recebeu a atenção de poetas, compositores, cientistas em todo mundo e que está presente no coração de cristãos de todas as idades, desde ao novo convertido até o ancião que já está terminando sua jornada aqui na terra: a eternidade.
 
Sem mais delongas, a música, paciente leitor, que compartilho com você neste momento é a Where I Belong (Onde Eu Pertenço), da banda americana Switchfoot. Switchfoot nasceu em 1996 e é nítido que suas canções foram influenciadas pelo trabalho de filósofos como Søren Kierkegaard, Agostinho de Hipona e do poeta T.S Elliot. Nomes de peso, não são? 
 
Não quero fazer com que Where I Belong seja também a música de sua vida, seria muita pretensão de minha parte. Mas proponho conversamos um pouco sobre o mundo que pertencemos e como essa canção faz o coração ansiar ainda mais por chegarmos nesse lugar.
 
Ressalto que assim como todas as artes, a música possui uma mensagem expressa em linguagem simbólica e plurissignificativa. Ou seja, é aberta a diversas leituras que, apesar de serem diferentes, não se anulam umas às outras e que, inclusive, podem ser realizadas de diferentes maneiras, por uma mesma pessoa dependendo do momento em que for apreciada. Portanto, o que vocês passarão a ler agora são a minha interpretação da música e as relações que fiz ao ouvi-la como uma simples apreciadora.
 
Então, prontos? Vamos lá.
 
 
Os primeiros versos da canção trazem uma sensação de que algo de diferente está acontecendo. A sensação de não pertencimento expressa em Feeling like a refugee, Like it don’t belong to me (Me sentindo como um refugiado, como se não pertencesse a mim) pode ser interpretada também como uma partida. Talvez a grande partida que todos nós um dia iremos experimentar. O que me fez lembrar um trecho da famosa obra do Shakespeare, ‘Hamlet’:
 
“Tudo que nasce deve morrer, passando pela natureza em direção à eternidade”
 
Sim, todos nós atravessaremos o rio que nos separa da vida terrestre efêmera da eternidade: Take a deep breath and close my eyes. One last time. (…) This skin and bones is a rental. And no one makes it out alive (Respiro profundamente e fecho meus olhos, pela última vez. (…) Esta pele e ossos são um aluguel. E ninguém sai dessa casa vivo).
 
A partir disso, podemos compreender duas verdades incontestáveis: Nós fomos criados e vivemos para a eternidade e tudo o quanto fizermos aqui, nesse breve tempo que nos resta, ecoará para o tempo vindouro. Deus plantou em nossos corações o anseio pelo eterno, afinal, é o lugar onde pertencemos. Porém não são todos os homens que compreendem, outros já deixaram de acreditar e, assim, passam a morrer a cada dia mais em vida, infelizmente (Ec 3.11).
 
No refrão, minha parte favorita da canção, o ritmo acelera e alguns versos revelam um vislumbre daquilo que foi reservado aos que acreditam: Where the weak are finally strong / Where the righteous right the wrongs (Onde os fracos são enfim fortes, Onde os justos corrigem os erros)E o próprio Deus nos preparou essa bela morada como está escrito em João 14.2. Incrível, não é? Como não desejar ir imediatamente para o lugar especialmente criado para nós pelo Dono do Universo? Um lugar onde não haverá injustiça, opressão, dor ou tristeza. É o Senhor que nos promete “A justiça será como uma faixa em seu peito, e a lealdade o seu cinturão” (Is 11.5).
 
Quando sinto meu coração se afligir pela maldade que se multiplica na terra, posso lembrar-me dos versos This body’s not my home/ This world is not my own/ But I can still hear the sound (Este corpo não é o meu lar, Esse mundo não é o meu, Mas ainda posso ouvir o som). Não somos daqui. Este corpo e mundo não são nossos. Os prazeres desta era não conseguem satisfazer o desejo que Ele colocou em nós. C.S Lewis vai expressar isso de forma brilhante quando escreveu: “Se descubro em mim um desejo que nenhuma experiência deste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo”.
 
Nas próximas e últimas estrofes fica difícil controlar a emoção: And when I reach the other side / I want to look you in the eye / And know that I’ve arrived /In a world where I belong (E quando o outro lado eu alcançar, Quero olhar pra o teu olhar, E saber que eu cheguei, A um mundo onde pertenço). Você já imaginou o momento em que você olhará nos olhos do Criador? Ele sabe que nós não iremos conter a emoção (estou, inclusive, chorando nesse exato momento enquanto escrevo). Por isso, com todo seu amor nosso Rei enxugará de nós todas as lágrimas. Não haverá noite, pois Ele brilhará em todo seu esplendor.
 
Sim, eu acredito que você e eu podemos viver juntos por toda eternidade. Acredito que esse momento começa a partir de agora quando nos preparamos para encontrar aquele que foi, é e sempre será.
 
You and I we begin forever now! (Você e eu iniciamos o para sempre agora!)
 
E até lá viveremos cantando essa e outras canções. Viveremos como uma música.
 
“Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida” (Ap 22.17).
 
Para sempre, agora.

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