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Racismo, o Evangelho e o momento atual

Como devem os cristãos, especialmente aqueles de contexto anglo-branco, responder ao protesto da alt-right (direita alternativa) que ocorreu em Charlottesville neste fim de semana e que trouxe trágicas consequências?

Creio que três breves coisas devem ser ditas sobre o assunto.

Primeiro, os cristãos devem estar atentos ao ousado movimento nacionalista branco, e a seus slogans fascistas, e condená-los — e ponto final. Sem os “mas por outro lado”. A maneira na qual as pessoas estão respondendo dos dois lados do espectro político é dizendo: “Tá vendo? É o que estivemos dizendo desde sempre. Isso prova que eu estava certo.” Os conservadores estão usando o evento para provar que as políticas esquerdistas de afirmação de identidade estão erradas, e os esquerdistas estão usando para provar que o conservadorismo é inerentemente racista. Não devemos fazer isto.

Segundo, esta é a hora de apresentar forte e claramente as doutrinas bíblicas sobre o pecado do racismo e sobre a idolatria à nação — , novamente, e ponto final. Em Atos 17:26, em meio a uma pregação evangelística para filósofos pagãos e seculares, Paulo apresenta Deus como o criador de todas as raças ‘a partir de um só homem’. Os ouvintes gregos de Paulo viam as outras raças como bárbaras, mas Paulo apresenta a todas as raças criadas pelo mesmo Deus e vindas de uma mesma linhagem contra as visões de superioridade racial. Tendo em vista que todos fomos criados à imagem de Deus, então todo ser humano é de valor igual e infinito (Gênesis 9:5,6). Vemos isso quando Jonas coloca os interesses nacionais de Israel a frente do bem espiritual da ‘racialmente diferente’ cidade pagã de Nínive, e por isso, ele é condenado terminantemente por Deus (Jonas 4:1–11). Um dos principais efeitos do Evangelho é quebrar as barreiras raciais que separam as pessoas (Gálatas 3:28Efésios 2:14–18), portanto é pecado grave realizar qualquer tipo de apoio a estas barreiras. Quando Pedro tentou fazer isto, Paulo o repreendeu por não compreender a amplitude do evangelho (Gálatas 2:14).

O racismo não deve vir a tona apenas em momentos como o que testemunhamos em Charlottesville na semana passada. A crueldade do racismo é um tema bíblico — um pecado que o evangelho revela e cura — e devemos ensinar isso regularmente em nossas pregações quotidianas. O que me leva ao último ponto.

Os movimentos fascistas do século XXI que transformaram os valores de “Blut und Boden” (Sangue e Solo) em absolutos — colocando o bem da raça e da nação acima do bem de todos — também clamam pela vitória de valores morais familiares e tradicionais sobre a decadência da cultura moderna relativista. Mas ainda que eles não fossem amigos do Cristianismo ortodoxo (visível nas ideias heréticas de Adolf Hitler com o seu ‘cristianismo positivo’), eles ainda conseguem manter certo apelo a pessoas em nossos círculos. O alcance das organizações nacionalistas brancas pela internet pode radicalizar pessoas que estão realmente descontentes com o declínio moral da sociedade. Portanto, é muito importante trazer à tona os ensinamentos bíblicos sobre o racismo — não apenas agora, mas rotineiramente. E precisamos fazer com que aqueles que estão em nossos círculos se tornem impenetráveis a esse ensino tóxico.


Por Timothy Keller para o The Gospel Coalition. Traduzido por Rilson Guedes.

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