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Recuperando amizades na Era da Mídia Social

Agostinho de Hipona escreveu certa vez que há duas coisas essenciais para a existência neste mundo: a vida e a amizade. Da mesma forma, Drew Hunter enfatizou em seu livro sobre o tema, “A amizade é, pra muitos de nós, um dos aspectos mais importantes e menos refletidos da vida.” A maioria das pessoas sentem a contradição de saber que a amizade é valiosa enquanto vivem como se ela não fosse.

E a chegada das mídias sociais não ajudaram em nada. Claro, é legal estar em dia com amigos, colegas e conhecidos, novos e antigos, de todas as partes do mundo. É legal aprender de uma grande variedade de vozes e ter inúmeros recursos que preenchem os nossos feeds. Mas as mídias sociais também distorcem nossa visão da amizade.

Amizades e pseudo-amizades

Enquanto passeamos por nossos feeds, que estão repletos de imagens e atualizações de centenas de pessoas com quem não conversamos em anos, podemos nos perguntar (com toda razão): “Essas pessoas são minhas amigas mesmo?” O paradoxo das mídias sociais é que conhecemos muitas pessoas enquanto não nos sentimos conhecidos por ninguém.

Stephen Marche captura bem essa dinâmica: “É um negócio solitário, perambular os laberintos de identidades projetadas por nossos amigos e pseudo-amigos, tentando descubrir que parte de nós mesmos queremos projetar, a quem escutar, e o que eles vão ouvir de nós.”

Um estudo da Cigna divulgado em 2018 descobriu que pessoas com idades variando entre 18 e 22 anos experimentam mais solidão que pessoas com 72 anos ou mais. Isto não é coincidência. Em um estudo recente da Universidade da Pensilvânia, a psicóloga Mellisa G. Hunt concluiu que há uma conexão inevitável entre a solidão e o uso de mídia social pelos jovens com esta faixa etária.

“É um pouco irônico que reduzir o uso de mídias sociais na verdade nos faz sentir menos solitários,” diz ela. “Usar menos mídia social do que você normalmente usa leva a um estado de diminuição tanto em depressão quanto em solidão.” As mídias sociais prometem conexão social, mas muitas vezes entregam isolamento social.

4 maneiras de recuperar as amizades 

A distorção da verdadeira amizade e das comunidades causada pelas mídias sociais apresenta aos cristãos uma grande oportunidade de recuperar e reenfatizar a prioridade da amizade. Aqui estão quatro maneiras pelas quais podemos redimir a distorção da amizade numa era de mídias sociais.

1. Priorize amizades cara a cara 

Há cerca de um ano tomei a decisão de priorizar um pequeno número de amigos que viviam perto em vez de investir muito tempo tentando ficar em dia com vários conhecidos de longe online. Coloquei na agenda encontros quinzenais com estes amigos. E quando queria saber como eles estavam, ligava pra eles em vez de apenas olhar os seus feeds. Com o tempo, percebi que trocar tweets e atualizações do Facebook por interações reais fortaleceram minhas amizades e me encheram de alegria.

2. Valorize amizades profundas 

Pela primeira vez em nossas vidas podemos medir a popularidade. As mídias sociais nos deram a habilidade de saber exatamente quantos pseudo-amigos temos. Isso causa uma competição silenciosa que muitas vezes reorienta nosso sistema de valores. Muitos de nós prefeririam ter cinco mil seguidores do que ter cinco amizades profundas. Tudo porque relacionamos nosso valor pessoal com o contador de seguidores.

Mas os cristãos deveriam pesar as coisas de maneira diferente, valorizando poucas amizades profundas, em vez de muitas superficiais. Deveríamos buscar amigos que conhecem nossas grandes alegrias e nossos sofrimentos mais profundos, não só os petiscos de vida que publicamos no Instagram.

3. Crie novos hábitos nas mídias sociais 

O medo de ficar desatualizado nas mídias sociais é real. Com medo de perder eventos sociais e atualizações, nos sentimos escravizados às mídias sociais. Este temor constante, é a injeção de dopamina que recebemos quando chega cada notificação, nos leva a checar o feed o tempo todo para saber a última novidade ou viral que podemos ter perdido.

Tudo enquanto interrompemos o tempo que poderíamos estar com a família, os amigos e Deus. Quando fluxos infindáveis de informação estão disponíveis a todo momento, ela tende a invadir a todo momento. Como nos livramos disso? Em seu excelente livro The Tech-Wise Family (A família que sabe usar a tecnologia), Andy Crouch sugere que possamos tomar períodos sabáticos planejados de nossas telas: uma hora por dia, um dia por semana, uma semana por ano. Escolher dizer não para as mídias sociais nos liberta para recolocar a Deus no centro e disfrutar das pessoas que Ele coloca em nossa frente – mesmo que pedamos algumas coisas online.

4. Descanse em Jesus, nosso amigo fiel

Jesus se coloca diante da pretensão de prover amizade verdadeira promovida pelas redes sociais, dizendo: ” Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos (João 15.13).” O Amigo não vem a nós por meio de uma tela, mas em um corpo real. Ele se reveste de carne e fraqueza para poder falar pra nós: “Já vos não chamarei servos…mas tenho-vos chamado amigos” (João 15.15). Jesus nos lembra que somos pessoas encarnadas, com o propósito de viver de forma alegre e sacrificial para o bem dos outros e para a glória de Deus.

Nosso valor não se encontra no número de seguidores que temos, mas no fato de que Jesus nos chamou de amigos. Quando descansamos nesta verdade gloriosa, somos libertados da escravidão das mídias sociais sobre o que é amizade e lembramos de onde vem nosso valor.


Escrito por Bred Merchant para o The Gospel Coalition. Traduzido por Rilson Guedes. 


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