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Temos mesmo que politizar tudo?

Você se lembra de quando podia comer uma coxinha ou um pão com mortadela sem precisar pensar em política?
 
Ou quando você podia assistir filmes como Star Wars, sem ter que ler textões no Facebook sobre como o filme “transformou seu Wookiee favorito em vegano” ou “lacrou na crítica ao fascismo conservador”?
 
Ou quando você podia assistir alguma premiação cinematográfica ou esportiva sem escutar um protesto político? Ou quando um clipe de funk não virava uma discussão sobre empoderamento?
Nos últimos tempos, o reino da política começou a se intrometer em cada outro aspecto de nossa vida em sociedade: esportes, religião, propaganda e arte.
 
O que está acontecendo? Estamos vendo dois processos entrando em convergência.
 

Processo #1: Consumo como religião

O primeiro processo em desenvolvimento é o de elevar nossas escolhas como consumidor ao nível de religião.
 
Em nossa sociedade estamos cada vez mais inclinados a nos definir pelo que consumimos e por como consumimos. Deixamos de comprar coisas para que satisfaçam necessidades, e passamos a comprar coisas pra nos tornar algo, ou expressar quem somos.
 
“Marcas são a nova religião,” é o que diz Douglas Atkin, escrevendo sobre lealdade do consumidor. As pessoas expressam suas identidades por meio do que escolhem comprar.
 
“Com um mar infinito de escolhas”, diz Skye Jethani, “a individualidade é a nova forma de aceitação.” A escolha é um fator poderoso numa sociedade de consumo, porque a escolha provê mais formas para que os consumidores demonstrem suas características únicas.
 

Processo #2: Política como religião

O segundo processo que está ocorrendo é o de elevação de nossas visões políticas ao nível de religião.
 
Em nossa sociedade estamos cada vez mais propensos entender nossas visões políticas como partes inegociáveis de nossa identidade. Por este motivo, pesquisas recentes mostram que as famílias estão tendo mais dificuldade com filhos ou filhas que desejam se casar com alguém de outra visão política que com alguém de outra religião!
 
Estamos na era secular, e nela as pessoas esperam que a fé se limite a ficar nas margens da vida pública. É algo privado, algo que você pode buscar como terapia, mas não pra política.
 
Mas, inevitavelmente, alguma coisa deve tomar o lugar da religião como o laço que une as pessoas. Se não vai ser Deus, então vai ser o governo. Se não a religião, então a polícia. Se não o evangelismo, então o ativismo político.
 
Eu (Trevin Wax) escrevi sobre esse processo em This is our time (Este é nosso tempo, em tradução livre), porque esta é uma das coisas que mais se destacam em nossa era. A colunista Peggy Noonan acerta quando diz que:
 

Para cada vez mais americanos, a política se tornou uma religião. As pessoas encontram significado nela e se definem por ela. (…) Quando a política se torna uma religião, as discordâncias de visão passam a ser vistas como apostasias, heresias. E vocês sabem o que fazemos com hereges.

Uma convergência de dar medo

 
Coloquemos essas duas coisas juntas: (1) a ideia de que suas escolhas de consumo expressam sua identidade e (2) a ideia de que suas visões políticas são a essência de quem você é. O que acontece depois disso?
 
Tudo vira questão de política.
 
Mais e mais pessoas passam a investir seu dinheiro e escolher seu entretenimento de acordo com seu significado político. Os “evangelistas políticos” acreditam que estão ajudando a sua causa ao se colocar ao lado desta marca e não daquela, e por boicotar este desenhista ou aquele comerciante porque ele está associado com os hereges (como Ivanka Trump, por exemplo).
 
As pessoas passam a procurar meios de asseverar sua integridade política em todos os lugares possíveis. Passam a apontar sua virtude política por meio de posicionamentos em redes sociais. Passam a mostrar que pertencem à igreja correta (digo, ao partido correto) ao se mostrar alinhado com as celebridades, atletas ou comerciantes que também endossam a sua posição política. E passam a se mostrar ofendidos por meio de boicotes aos heréticos.
 

O efeito do Evangelismo

O evangelho lança um desafio a esta convergência. O anúncio de que o Messias crucificado é o rei do mundo deve nos fazer olhar para uma lealdade superior aos partidos. O evangelho, é claro, tem implicações políticas, mas ele rebaixa ‘o reino político’ a uma posição menor.
 
O evangelho também exige que vejamos em outros — até mesmo a nossos oponentes políticos — a imagem de Deus que faz a toda a humanidade digna. Entender o sacrifício de Jesus por nosso pecados e por nosso egoísmo deve produzir em nós um senso de humildade em como nos relacionamos com o mundo ao nosso redor.
 
Não há dúvida de que alguns cristãos estiveram envolvidos na criação dos dois processos que agora vemos convergir. Nós reconhecemos que nossas escolhas estão sempre acompanhadas de uma dimensão moral. Apoio a marcas ou boicotes, protestos e mostras de apoio são apropriados cada certo tempo.
 
Mas, certamente, devemos resistir a tendência de achatar as várias esferas da vida (comercial, artística, esportiva, etc.) ao colocar todas elas como subordinadas ao assunto político do momento. A política é uma das esferas da vida, mas não a principal.
 
“Nem toda onda de entusiasmo político merece atenção da igreja”, diz o acadêmico britânico Oliver O’Donovan:
 

Os poderes e principados buscam extrair da humanidade um entusiasmo fervoroso como forma de adoração. A tarefa da igreja é lhes recusar essa adoração. Muitas vezes…a maior crítica que podemos fazer a política é falar de outra coisa.

Em um mundo de crescente polarização e politização, temos uma oportunidade de mostrar por meio de nossas atitudes e ações um caminho diferente. Se nós, como cristãos, não podemos mostrar ao mundo que existe algo maior e mais importante que a política, quem poderá fazê-lo?
 
 

Baseado em um artigo de Trevin Wax para o The Gospel Coalition. Traduzido por Rilson Guedes. Trevin Wax é editor do The Gospel Coalition e pastor no Teneesee, EUA. Você pode segui-lo no Twitter aqui.


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