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Três lições que podemos aprender de Chernobyl (HBO)

“Lembre-se,” dizia o engenheiro nuclear interpretado por Ed Asner numa esquete do Saturday Nighy Live sobre Chernobyl. “Não dá pra colocar água demais em um reator nuclear.”
 
Os outros engenheiros ficaram confusos. Ele estava dizendo que você deveria colocar muita água porque “não existe água demais pra um reator nuclear”, ou que deveria colocar pouca água porque “não dá pra colocar demais” pra não desequilibrar o sistema?
 
Quando eu tinha dez anos, eu ria muito com o efeito cômico desta piada ambígua. E ainda que isso não era tudo o que eu sabia deste desastre, não estava longe isso. 
 
Mas, décadas depois, depois de relutar muito, comecei a assistir a aclamada minissérie da HBO Chernobyl com a minha família. Os últimos anos me deixaram menos inclinada a me entreter com a agonia das inúmeras pessoas afetadas pelo acidente mais desastroso que já ocorreu com uma planta nuclear na história. Mas, ainda assim, assisti a série completa, e não apenas achei esta uma história convincente, mas também cheia de compreensões e perspectivas interessantes para os cristãos modernos. Aqui estão três delas. 
 
 

Nossa visão atual de coragem parece que acabou de receber um balde d’água fria

 
Em 26 de Abril de 1986, uma explosão seguida de incêndio no reator 4 de Chernobyl espalhou contaminação radioativa por terras soviéticas e europeias. No pânico que se seguiu a este evento, corajosas e valentes almas sacrificaram sua saúde e sua vida para salvar outros.
 
Através dos episódios, a minissérie conta a história dos bombeiros que foram até a planta nuclear, sem saber que a radiação poderia lhes causar mortes lentas e macabras. Também encontramos ousados mineiros ficarem sem roupa para cavar debaixo de um núcleo em fusão, processo que ameaçava derreter o concreto sobre o qual o núcleo estava e contaminar a água que abastecia cerca de 50 milhões de pessoas. Testemunhamos pilotos de helicóptero habilidosos, dispostos a arriscar (e entregar) suas vidas na missão de jogar boro sobre o reator. Vemos voluntários se apressarem em turnos de 90 segundos sobre o teto instável do reator para jogar grafite pelas bordas do prédio e diminuir a contaminação do local. 
 
O “clímax das demonstrações de coragem” vem quando o físico soviético Valery Legasov (interpretado por Jared Harris) testemunha perante uma corte sobre as decisões de seu próprio governo que ajudaram a causar a explosão do núcleo. Depois de apontar que ele já teria a sua expectativa de vida diminuída por causa da radiação, Lagasov lamenta as possíveis consequências de dizer a verdade: “Vou ganhar uma bala (com isso).”
 
E ainda que ele acreditasse que tudo aquilo seria em vão e até fatal para ele, Legasov corajosamente revelou os mínimos detalhes de sua investigação para o mundo. E depois de sua morte, seus escritos finalmente causaram as reformas necessárias no país, salvando um incontável número de vidas. 
 

A verdade é questão de vida ou morte

 
 
 
Romanos 6.23 alerta que o salário do pecado é a morte, e nós vemos este padrão se repetir em Chernobyl. Vemos isto quando os engenheiros se recusam a admitir a escala do desastre, quando os oficiais do governo não evacuam as pessoas da cidade para salvar sua imagem pessoal, e quando Legasov se enforca depois de alimentar carinhosamente o seu gato. 
 
“Qual o custo das mentiras?” ele narra na abertura da série, tematicamente definindo tudo o que veríamos depois. “Não é que as confundiremos com a verdade. O verdadeiro perigo é que se ouvirmos mentiras o suficiente, deixaremos de reconhecer a verdade. E o que faremos então?”
 
A série mostra firmemente o desespero de uma sociedade onde a desonestidade é a norma, onde os oficiais do governo usam o extintor contra a verdade ao custo de vidas humanas reais. E ainda que os cristãos americanos não vivam em tal sociedade, Chernobyl é um sóbrio lembrete de que não devemos ver as mentiras como parte do ‘teatro político’ ou simplesmente um meio de ganhar ‘pontos num jogo’, mas como um mal real — especialmente se vierem de oficiais do governo tentando esmagar a comunicação da verdade. O criador da série, Craig Mazin, disse para o jornal L. A. Times que a série falava diretamente com nossa era: “Estamos vivendo numa guerra global pela verdade.”
 
Nas últimas falas da minissérie, Legasov diz que o engano não pode vencer, porque a verdade “sempre está à espreita.” E ainda que Mazin não tenha evocado deliberadamente a ideia de um Deus eterno através dessa frase, a série sugere a existência de uma realidade transcendente e objetiva da verdade que só pode vir de um poder divino.
 

A onipotência de Deus é estonteante

 
 
Depois de assistir o primeiro episódio, minha filha destacou: “É impressionante como Deus consegue empacotar tanto poder dentro de apenas uma molécula, e como as forças que unem um único átomo podem causar tamanha devastação.”
 
De fato, uma tremenda devastação. Pelo menos 350 mil pessoas que viviam nos arredores de Chernobyl tiveram que sair de suas casas e uma área de trinta quilômetros ao redor da planta virou “zona de exclusão”. O desastre causou estimadamente 235 bilhões de dólares em danos, e cientistas predizem que a zona que rodeia a planta não será habitável por mais de 20 mil anos. 
 
Então, não é Chernobyl uma Torre de Babel moderna? Mostrando o orgulho e a arrogância humana por conseguir energia desta maneira? Será que não aprendemos nada? De acordo com o físico William C. Poland, ex-diretor do Instituto de Estudos Nucleares Oak Rigde, não. 
 
“Nosso sol é uma planta nuclear natural, e há mais de cem bilhões de outras estrelas como esta espalhadas por toda a galáxia”, escreveu ele. Em outras palavras, nossa existência depende do sol (assim como do carvão, o gás, o petróleo e até dos ventos). Independente da visão política sobre a energia nuclear, todos dependemos dela. E apesar de que os soviéticos claramente lidaram mal com a energia nuclear, Pollard a descreve como “apenas um uso mais direto da fonte do que antes usávamos de forma indireta e derivada.”
 
Uma fonte de poder que pode destruir e dar vida? 
 
Quando eu era criança, aprendi sobre Deus na Escola Dominical através de palavras como ‘onipotente’, ‘onisciente’ e ‘onipresente’. E, apesar de que essas palavras não representam a soma de todo o meu conhecimento sobre Deus, elas chegam perto disso. Diferente das palavras usadas nas piadas do Saturday Night Live, elas não são ambíguas. Elas são uma definição teológica precisa sobre os atributos de Deus, mas minha mente nunca foi capaz de compreender totalmente estes conceitos. 
 
Entretanto, depois de assistir Chernobyl, minha mente começou a refletir sobre um Deus que consegue esconder tanto poder dentro de simples átomos. Após ver os efeitos devastadores da radiação, a série me fez ponderar sobre o Deus que pode fazer o Sol flutuar facilmente pela Via Láctea e permite que ele queime a si mesmo para dar vida aos humanos. E não apenas o sol. Bilhões de outras galáxias também estão cheias de “sóis”. 
 
“Uma grande parte de toda a matéria no universo é incorporada nestas ‘plantas nucleares’”, escreveu Pollard sobre as estrelas. “É um motivo de reflexão pensar que Deus fez mais delas do que qualquer outra coisa no universo.”
 
Sim, é um grande motivo de reflexão. 

Por Nancy French para o The Gospel Coalition. Traduzido por Rilson Guedes. Nancy French é autora de livros que chegaram na lista de mais vendidos no The New York Times. Você pode encontrá-la em seu perfil no Twitter

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