A nova Nárnia de Greta Gerwig terá uma trilha de referências bastante diferente daquela que muitos fãs poderiam imaginar.
Em uma nova entrevista à revista Empire, publicada nesta quinta-feira, 17 de setembro, a diretora revelou que o rock britânico das décadas de 1960 e 1970 foi uma das principais influências criativas para Nárnia: O Sobrinho do Mago. Entre os artistas citados por Gerwig estão David Bowie, Paul McCartney, David Gilmour, Pete Townshend, Jimmy Page e Robert Plant.
A revelação ajuda a compreender melhor a identidade que a cineasta está construindo para sua adaptação dos livros de C. S. Lewis — especialmente depois que a Netflix começou a apresentar oficialmente o projeto, com o novo logo do filme e, agora, as primeiras imagens de Aslam e Jadis.
Mas há um detalhe importante: o filme não será um musical.
Gerwig chegou a imaginar inicialmente algo próximo de uma ópera rock, mas O Sobrinho do Mago não será estruturado como um filme musical tradicional.
“Eu queria uma ópera rock”
Segundo Gerwig, a ideia surgiu durante o mesmo período criativo em que ela desenvolveu a visão para Barbie.
“Eu tive a mesma ideia com Nárnia. Eu queria uma ópera rock. Eu queria que fosse grande e transportadora.”
Embora o resultado final não seja literalmente uma ópera rock, a diretora decidiu incorporar à linguagem do filme a criatividade e a energia do rock britânico produzido principalmente nas décadas de 1960 e 1970.
O glam rock, a psicodelia e a experimentação do rock progressivo se tornaram importantes referências para a produção.
E Gerwig não esconde quais artistas tiveram influência sobre sua imaginação.
“David Bowie salvou minha vida. Paul McCartney salvou minha vida. David Gilmour salvou minha vida. Pete Townshend salvou minha vida. Jimmy Page, Robert Plant…”
Para a diretora, ouvir aquelas músicas produzia uma sensação muito específica:
“Quando ouvi a música deles, tive uma sensação profunda de: ‘Você vai ficar bem’.”
É justamente essa relação entre música, emoção e transformação que Gerwig pretende levar para Nárnia.
“Nárnia é literalmente um mundo feito de música”
A escolha pode parecer inesperada para uma adaptação de C. S. Lewis, mas existe uma conexão direta entre o rock e a própria mitologia de O Sobrinho do Mago.
No livro, Nárnia nasce por meio da música.
Quando Digory e Polly chegam ao vazio, testemunham Aslam cantando a criação do novo mundo. Sua voz dá forma à realidade, enquanto a escuridão é preenchida por luz, vida e movimento.
Para Gerwig, essa característica tornou a música uma das chaves para compreender sua versão da história.
“Nárnia é literalmente um mundo feito de música. É um mundo cantado à vida por Aslam, e o rock ’n’ roll, para mim, parecia um mundo feito de música.”
A ideia também ajuda a explicar algumas das escolhas visuais já apresentadas pela produção.
O novo logo de Nárnia: O Sobrinho do Mago, revelado pela Netflix nesta semana, abandona a estética mais medieval dos filmes anteriores e apresenta letras preenchidas por uma composição colorida e quase pictórica.
Agora, com as declarações de Gerwig, fica mais evidente que a nova identidade pretende transmitir algo mais artístico, vibrante e experimental.
David Bowie chega a Nárnia
Entre todas as referências mencionadas pela diretora, David Bowie parece ocupar uma posição particularmente importante.
A influência do músico já aparece diretamente no novo Aslam.
A primeira imagem oficial do personagem, revelada pela Empire, mostra o Grande Leão com olhos de cores diferentes e uma marcante faixa vermelha atravessando o rosto. Segundo a publicação, essas características fazem referência a Bowie e a uma das inspirações visuais utilizadas por Gerwig.
A conexão é especialmente interessante porque Bowie foi uma figura conhecida por transformar constantemente sua própria identidade artística.
De Ziggy Stardust ao glam rock, passando por diferentes personagens e fases musicais, sua carreira esteve profundamente ligada à ideia de criação de mundos e personagens.
E essa parece ser justamente a abordagem que Gerwig quer aplicar a Nárnia.
A diretora chegou a estabelecer uma conexão curiosa entre Bowie e a história de Digory:
“Não sei como você passa de David Jones para David Bowie sem passar por Nárnia e ver alguma coisa.”
David Jones era o nome de nascimento de Bowie. Para Gerwig, a transformação do jovem músico em uma das figuras mais marcantes da cultura pop possui algo de fantástico — como se fosse uma espécie de passagem para outro mundo.
A Nárnia do pós-guerra
Talvez a maior consequência dessa influência musical esteja na própria época em que Gerwig decidiu ambientar a história.
No livro de Lewis, O Sobrinho do Mago se passa no início do século XX. A adaptação, porém, transportará a história para a Grã-Bretanha do pós-guerra, na década de 1950.
Digory e Polly serão interpretados por David McKenna e Beatrice Campbell, respectivamente.
Para Gerwig, essa mudança permite estabelecer uma ligação entre a infância marcada pela destruição do pós-guerra e a explosão cultural que aconteceria nas décadas seguintes.
A diretora olha para aquela geração de crianças e enxerga algo extraordinário: jovens que cresceram em meio à perda, à destruição e aos escombros, mas que posteriormente ajudariam a criar uma das maiores revoluções culturais da história da música.
“Eles tinham essa relação com a dor e a perda e com algo tão pouco promissor quanto um local bombardeado, e construíram um castelo.”
E ela continua:
“Eles construíram um universo. Construíram algo dentro do qual você poderia viver.”
Essa frase pode ser uma das melhores pistas sobre o que Gerwig pretende fazer com a história de Digory e Polly.
Dos escombros a Nárnia
A ideia estabelece um paralelo entre dois tipos de criação.
De um lado, existe a Grã-Bretanha do pós-guerra, marcada pelos bombardeios e pela destruição. Do outro, existe Nárnia, que nasce literalmente do nada.
Em ambos os casos, Gerwig parece interessada na capacidade de criar algo novo a partir de um cenário aparentemente vazio ou destruído.
Os personagens vivem em um mundo real marcado pela guerra, pela perda e pela reconstrução. Ao atravessarem os diferentes mundos, encontram algo que ultrapassa completamente aquilo que conhecem.
E então testemunham o nascimento de Nárnia.
Essa abordagem também pode explicar por que a diretora está tão interessada no rock britânico. A música daquela geração surgiu justamente em um período de profundas transformações culturais e sociais.
Para Gerwig, portanto, o rock não parece ser simplesmente uma referência estética.
Ele representa uma maneira de imaginar e construir mundos.
Não será um musical
Apesar de toda essa influência musical, é importante reforçar: Nárnia: O Sobrinho do Mago não será um musical.
A expressão “ópera rock” descreve principalmente a ambição estética e criativa que Gerwig tinha para o projeto. A música funciona como uma influência sobre o universo do filme, e não como uma estrutura narrativa em que os personagens passarão a cantar suas falas.
A própria reportagem da Empire esclarece que o longa não é um musical.
Isso significa que a influência do rock deverá aparecer de outras maneiras: na fotografia, nos figurinos, no design de produção, na construção de personagens, na energia das cenas e na própria maneira como o filme representa a criação de Nárnia.
E, considerando as primeiras imagens divulgadas, essa influência já começa a ser perceptível.
Uma Nárnia diferente da de 2005
A nova abordagem também ajuda a explicar por que a produção parece tão diferente dos filmes anteriores.
A primeira adaptação cinematográfica de As Crônicas de Nárnia, lançada em 2005, construiu sua identidade em torno de uma fantasia épica de inspiração medieval. O mundo de Lewis era apresentado com grandes castelos, batalhas, armaduras, florestas e criaturas fantásticas.
Gerwig está começando por outro lugar.
Sua Nárnia nasce do som, da imaginação, da arte e da transformação.
O novo logo é colorido e pictórico.
Aslam possui elementos visuais inspirados em David Bowie.
A história foi transportada para a Grã-Bretanha do pós-guerra.
E a diretora fala sobre o nascimento de Nárnia utilizando a linguagem do rock.
Tudo isso aponta para uma adaptação que pretende ter uma identidade visual própria.
E Jadis também aparece
A reportagem da Empire trouxe ainda a primeira imagem oficial de Jadis, interpretada por Emma Mackey.
Na imagem, a personagem aparece conduzindo Digory e Polly pelas ruínas de Charn, o mundo devastado que os protagonistas visitam durante sua aventura.
A presença de Jadis é especialmente importante porque O Sobrinho do Mago não conta apenas como Nárnia nasceu. O livro também revela as origens da Feiticeira Branca, posteriormente conhecida pelos leitores como a grande antagonista de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa.
Assim, o filme de Gerwig terá a oportunidade de apresentar personagens e acontecimentos que até agora não haviam sido explorados em uma adaptação cinematográfica.
Uma nova linguagem para uma velha história
A grande questão agora é descobrir como todas essas influências funcionarão juntas.
Greta Gerwig está adaptando uma obra publicada originalmente em 1955, escrita por um autor profundamente influenciado pelo cristianismo, pela mitologia e pela literatura clássica. Ao mesmo tempo, sua versão incorpora referências do glam rock, do rock progressivo, de David Bowie e da cultura britânica do pós-guerra.
Isso cria uma combinação pouco convencional.
Mas existe uma lógica por trás dela.
C. S. Lewis escreveu sobre a criação de um mundo através da música. Gerwig cresceu ouvindo artistas que, em suas palavras, fizeram com que ela acreditasse que era possível criar novos mundos.
Agora, ela pretende juntar essas duas experiências.
Nárnia será um mundo criado pelo canto de Aslam — mas, na visão de Greta Gerwig, talvez também carregue um pouco da energia daqueles músicos que ensinaram uma geração a imaginar que novos mundos eram possíveis.
Nárnia: O Sobrinho do Mago chega aos cinemas em 12 de fevereiro de 2027 e à Netflix em 2 de abril de 2027.




