Desde que o nome de Meryl Streep começou a circular ligado a Aslam, em abril de 2025, uma pergunta acompanha a adaptação de Greta Gerwig: como vai soar a voz do Leão? Nesta semana, surgiram as primeiras pistas. Segundo a revista cristã americana Relevant, uma pessoa envolvida com o filme, que já o assistiu e pediu anonimato, afirmou que Aslam soa claramente masculino, e que a voz que se ouve é ‘a de Aslam, não a de Streep’. O NarniaWeb, maior site de fãs da série, diz ter recebido vários relatos independentes no mesmo sentido: Streep dará ao Leão uma voz grave e áspera.
É a informação mais concreta até agora sobre um dos pontos mais discutidos do filme. Mas é preciso lê-la com cuidado, e entender por que ela resolve e responde só parte do debate.
O que se sabe, e o que ainda é relato
Há três sinais de que Aslam continua sendo “ele” no filme:
- O relato da Relevant, publicado depois do evento de prévia em IMAX, em Nova York, no dia 13 de outubro, com base em uma fonte anônima.
- Os relatos ao NarniaWeb, que o site descreve como independentes entre si, mas que também não têm autoria pública.
- As palavras de Gerwig. Na conversa com Stephen Colbert no mesmo evento, a diretora se referiu a Aslam sempre no masculino. A Empire, que confirmou a escalação em setembro, também trata o personagem como “ele”, e o Leão que aparece no trailer tem juba.
O que ainda não se sabe: nenhum trecho da voz de Aslam foi divulgado oficialmente. No trailer, o Leão não fala. Também não se sabe se a voz grave vem só da interpretação de Streep ou de algum tratamento de áudio na pós-produção, hipótese que fãs levantam desde o início. Gerwig, por sua vez, nunca tratou diretamente da questão do gênero do personagem; defendeu a escolha da atriz, não a do timbre.
Como chegamos aqui
A história é longa. Em abril de 2025, o site Nexus Point News noticiou que Streep negociava para dar voz a Aslam e afirmou que o personagem seria retratado como fêmea. O Deadline confirmou as negociações dias depois, sem endossar a parte da leoa. Em março de 2026, Emma Mackey, que vive Jadis, confirmou indiretamente a presença de Streep no elenco. A confirmação oficial só veio em 17 de setembro, na revista Empire, junto com a primeira imagem do novo Aslam, de olhos de cores diferentes, numa referência a David Bowie.
A reação foi imediata, sobretudo entre cristãos evangélicos e católicos. Comentaristas chamaram a escolha de blasfema, uma petição pediu a substituição de Gerwig, e Ted Baehr, fundador do Movieguide, afirmou que a família de Lewis estava insatisfeita. Dias depois, os familiares dos enteados de Lewis divulgaram uma nota de apoio a Gerwig, sem mencionar Aslam nem Streep, e disseram ainda não ter ouvido nenhum trecho do filme.
A suspensão da descrença
Se os relatos se confirmarem, o primeiro teste será técnico: o público vai esquecer quem está por trás da voz?
O cinema e a animação têm uma longa tradição de vozes que não correspondem ao corpo do intérprete. Mulheres dão voz a meninos há décadas, no original e na dublagem brasileira, e muitas vezes o público nem percebe. O conceito de suspensão voluntária da descrença, cunhado pelo poeta Samuel Taylor Coleridge, descreve justamente esse pacto: o espectador aceita a convenção desde que a obra a sustente. Streep tem histórico de transformações radicais, incluindo um rabino idoso em Angels in America (2003), e é conhecida pelo domínio de sotaques.
Mas há diferenças importantes. Um menino dublado por uma mulher é uma convenção consolidada; um leão cósmico e adulto, que para muitos leitores fala com a autoridade do próprio Cristo, é outra coisa. Além disso, toda uma geração associa Aslam à voz de Liam Neeson, nos filmes de 2005 a 2010. E se houver manipulação digital, o risco é o oposto: uma voz que soe artificial demais e quebre o encanto em vez de sustentá-lo. Tudo depende da execução, e isso só poderá ser avaliado em fevereiro.
E a dublagem?
Há um detalhe que pesa especialmente para o público brasileiro. Fora dos Estados Unidos, o filme será distribuído nos cinemas pela Sony Pictures, e no Brasil a estreia está marcada para 11 de fevereiro de 2027. Boa parte dos espectadores daqui vai assistir à versão dublada, e até agora não foi anunciado quem fará Aslam em português.
A escolha não é automática. Nos filmes anteriores, Aslam teve vozes masculinas na dublagem brasileira: Paulo Goulart em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (2005) e Júlio Chaves nas continuações; na série da BBC, Antônio Moreno. Os estúdios costumam seguir o gênero do intérprete original, mas também levam em conta o personagem. Também não se sabe como Aslam será dublado em outros idiomas. É possível que, para quem assistir dublado, a polêmica do timbre simplesmente não exista, ou que ela ressurja de outra forma, dependendo da escolha de cada país.
Por que o timbre não encerra a questão
Mesmo que Aslam soe como um leão, a escolha de uma atriz consagrada continua gerando desconforto em parte dos leitores cristãos, e não por acaso. Aslam não é um personagem qualquer. Lewis rejeitava a ideia de que Aslam fosse uma alegoria no sentido estrito; em cartas, descreveu o Leão como uma resposta imaginativa à pergunta sobre como Cristo poderia se manifestar num outro mundo Em A Viagem do Peregrino da Alvorada, o próprio Aslam diz às crianças que, no nosso mundo, tem outro nome.
Para os críticos, portanto, a pergunta não é se a voz ficará grave, mas por que escolher uma mulher para dar voz a essa figura. Alguns lembram que o próprio Lewis, no ensaio Sacerdotisas na Igreja? (1948), defendeu que as imagens masculinas que a tradição cristã usa para Deus não são arbitrárias. Para esses leitores, mesmo uma voz convincente não apaga o gesto simbólico da escalação. Há também quem desconfie das intenções de Gerwig, por causa de Barbie e de declarações anteriores sobre religião.
Do outro lado, há cristãos que veem a reação como exagerada. Phil Vischer, criador de VeggieTales, disse ao Religion News Service que ficou mais intrigado do que irritado. A escritora católica Mary Pezzulo, que nem gostou do trailer, lembrou que transformar Jesus em um animal já é uma ousadia que não tira a dignidade dele. Outros apontam que, nos próprios livros, Aslam aparece como cordeiro, gato e albatroz, e que no fim de A Viagem do Peregrino da Alvorada o Cordeiro tem uma voz descrita como doce. E há quem tema que parte das críticas, sobretudo as que circulam com xingamentos nas redes, acabe soando como desprezo às mulheres, e não como zelo teológico. Tudo isso está envolto em debates culturais que estão bem além da fronteira de Nárnia, e que Nárnia agora faz parte das decisões da produção do novo filme.
Os dois lados têm argumentos que merecem ser ouvidos. Uma coisa é discordar de uma escolha artística por razões teológicas sérias; outra é transformar a discordância em ataque pessoal a uma atriz que ainda nem foi ouvida no papel. Tudo isso precisa ser lidado com cuidado.
O que Gerwig diz
Em entrevista à Empire, Gerwig explicou que procurava alguém profundo sem ser pretensioso, com peso sem solenidade excessiva, capaz de transmitir tanto dor quanto alegria. Disse que queria alguém “com mais de 70 anos”, com a sabedoria da experiência mas também a capacidade de se maravilhar como uma criança, e que a lista de atores assim é curta.
Na mesma entrevista, ela descreveu Aslam como um leão cósmico que inspira assombro no sentido antigo da palavra: algo grandioso e poderoso, que nem sempre traz só encanto e pode até assustar. É uma descrição que se aproxima do que o próprio Lewis, em O Problema do Sofrimento, chamou de numinoso, o temor reverente diante do sagrado. Os castores de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa já avisavam que Aslam não é um leão domesticado, mas é bom. Mas será que a Meryl é a voz adequada para transmitir isso e ao mesmo tempo respeitar a essência da obra de Lewis?
E agora?
Os relatos desta semana respondem a uma dúvida que se arrastava há mais de um ano: tudo indica que Aslam será “ele”, com voz de leão. Mas ninguém fora da produção ouviu essa voz ainda, a dublagem brasileira segue indefinida e o debate sobre o significado simbólico da escolha não depende do timbre.
Talvez o dado mais interessante de toda essa discussão seja outro: setenta anos depois de O Sobrinho do Mago, ainda há milhões de pessoas que se importam profundamente com quem fala por Aslam. Lewis provavelmente não ficaria surpreso. Mas será que veremos Lewis nas telas?
Fontes
- NarniaWeb: Meryl Streep’s Aslan Voice Described as Sounding “Clearly Male”
- Relevant: Greta Gerwig’s Narnia Looks Awesome: What We Saw and Heard at the IMAX Preview Event
- Religion News Service: Meryl Streep as Narnia’s Aslan: Why some evangelicals call it blasphemy
- Associated Press (via CP24): Meryl Streep’s Aslan stirs gender debate
- Deseret News: Greta Gerwig talks C.S. Lewis, faith at Narnia trailer preview
- Fox News: Director of new Narnia movie takes heat over casting
- NarniaWeb Investigates: Will Aslan be a Lioness?
- Omelete: Sony lançará filme da Netflix nos cinemas do Brasil
- Dublagem Wiki: Aslam
- Narniano: Emma Mackey confirma Meryl Streep no elenco de Nárnia
- Narniano: Família de C.S. Lewis lança nota com apoio a Greta Gerwig



