Netflix demite chefe de cinema em meio a rumores sobre Nárnia

A crise na Netflix ganhou mais um capítulo. Dan Lin, chefe da divisão de cinema do serviço, foi demitido no fim de semana. A notícia foi dada nesta segunda-feira, 19 de outubro, por Matthew Belloni, do Puck, e confirmada pela Variety. A Netflix não quis comentar. Lin era o executivo responsável, dentro da empresa, por Nárnia: O Sobrinho do Mago, e há semanas circulam relatos de atrito entre ele e Greta Gerwig.

Nas redes, a notícia chegou acompanhada de manchetes alarmistas, inclusive uma que chama o filme de “lixo woke” e fala em projetos congelados. Como fizemos na semana passada, vale separar as camadas.

O que está confirmado

  • Dan Lin está fora. Ele comandava o cinema da Netflix desde 2024, quando substituiu Scott Stuber, com a missão de reduzir gastos e o volume de lançamentos. Segundo Belloni, a nova liderança será escolhida por Peter Rice. Ainda não há substituto anunciado; a imprensa americana cita Mike De Luca e Pam Abdy, ex-chefes de cinema da Warner, como possíveis nomes.
  • Bela Bajaria também está saindo. A chefe de conteúdo da Netflix, que estava na empresa havia dez anos, teve a saída anunciada oficialmente na quinta-feira, 15 de outubro, pelo co-CEO Ted Sarandos. Será substituída por Peter Rice, ex-executivo da Disney e da Fox, a partir de 26 de outubro.
  • A empresa está em reestruturação. Na semana passada, a Netflix cortou cerca de mil vagas, aproximadamente 6% da equipe, em meio a notícias de queda no engajamento. Outros nomes da área de cinema, como Doug Belgrad e Sheroum Kim, já tinham deixado a empresa.

O que é relato: Nárnia pesou na demissão?

Pode ter pesado, mas não há confirmação oficial. Quem afirma que Nárnia foi um dos fatores é Jeff Sneider, o mesmo jornalista que, na semana passada, publicou que pessoas dentro da Netflix consideravam o filme ruim e que havia atrito entre Gerwig e Lin. Como já mostramos aqui, Sneider é um repórter veterano, mas com histórico de polêmicas, e seus relatos se baseiam em fontes anônimas.

Outros veículos também apontam a tensão. A Variety tratou do assunto na reportagem sobre a demissão, e o site World of Reel afirma que Lin deu muitas notas sobre os primeiros cortes do filme e prometeu “consertar” o resultado na pós-produção. Mas o mesmo site lembra que o atrito não foi só com Gerwig: David Fincher teria deixado seu contrato com a Netflix depois de brigar com Lin por causa de refilmagens. O cenário mais provável é que Nárnia tenha sido um entre vários problemas numa gestão que já estava sob pressão.

O que é exagero

A manchete que mais circulou nas redes é do Cosmic Book News. O site afirma que o desenvolvimento de projetos na Netflix está congelado, que mais demissões vêm aí e cita uma fonte que chama o filme de Gerwig de “insanidade woke”. Não encontramos nenhum outro veículo confirmando essas informações, e há motivos para cautela:

  • A fonte é única e anônima, e o próprio site a descreve como alguém ligado à Paramount, um estúdio concorrente. Não está claro como alguém de fora teria acesso ao funcionamento interno da Netflix.
  • “Woke” é opinião, não informação. A expressão diz o que a fonte pensa do filme, não o que acontece na produção. E é difícil levar a sério um juízo desses sobre um filme que quase ninguém viu.
  • O veículo tem tom sensacionalista. Foi o mesmo site que destacou os “15 mil dislikes” do trailer, numa semana em que a recepção foi, na verdade, dividida.

Isso não quer dizer que tudo ali seja falso. Uma pausa em novos projetos durante uma troca de comando é plausível: o cargo de chefe de cinema está vago e o novo chefe de conteúdo só assume no dia 26. Mas plausível não é o mesmo que confirmado.

O que muda para O Sobrinho do Mago

Por enquanto, nada de concreto. As datas seguem mantidas: pré-estreias em IMAX a partir de 10 de fevereiro de 2027, estreia nos cinemas brasileiros em 11 de fevereiro, pela Sony, e chegada à Netflix em 2 de abril. O filme está em pós-produção.

A demissão fecha uma semana em que o filme já concentrava atenções. O primeiro trailer, embalado por “Stairway to Heaven”, dividiu o público; a HarperCollins revelou novas edições dos livros inspiradas no filme; e relatos indicaram que Aslam terá voz “claramente masculina”, apesar da escalação de Meryl Streep. Do lado de fora, o lançamento segue em ritmo normal. Do lado de dentro, a casa está mudando de dono.

O que dá para fazer, por ora, é levantar hipóteses, e é importante que o leitor as tome como tal. Se os relatos de atrito forem verdadeiros, a saída de Lin pode dar a Gerwig mais liberdade na reta final da montagem. Também é possível o contrário: uma nova liderança, sob pressão para cortar custos, pode olhar com ainda mais rigor para um filme de US$ 280 milhões. E há uma questão maior em jogo: o contrato de Gerwig previa dois filmes, e a Netflix sempre tratou Nárnia como o início de uma franquia. O futuro dessa franquia agora depende de executivos que ainda nem foram nomeados.

Em resumo

A demissão de Dan Lin e a saída de Bela Bajaria são fatos. A ligação com Nárnia é um relato plausível, com fontes anônimas, e provavelmente é só parte da história. Já as manchetes sobre “lixo woke” e projetos congelados são, até agora, opinião embalada como notícia. Em fevereiro, o público vai poder julgar o filme por conta própria. Até lá, vale desconfiar de quem já tem o veredito pronto, para o bem ou para o mal.

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Fontes

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