Na terça-feira, 13 de outubro, a Netflix lançou o primeiro trailer de Nárnia: O Sobrinho do Mago, com Aslam criando o mundo ao som de “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin. No dia seguinte, enquanto a internet ainda discutia o trailer, uma newsletter de Hollywood afirmou que o filme vive uma crise interna no estúdio. A notícia correu rápido e chegou ao Brasil em posts de páginas de cultura pop, muitas vezes sem o contexto necessário. Aqui vai o que dá para confirmar, o que é apenas relato anônimo e o que merece um pouco mais de calma.
O que diz o relato
A origem de tudo é a InSneider, newsletter do jornalista americano Jeff Sneider, publicada em 14 de outubro. Segundo ele:
- O orçamento do filme seria de US$ 280 milhões, e há quem diga que o número real é maior.
- Uma fonte afirma que pessoas dentro da Netflix consideram o filme “horrível” e um “problema genuíno”.
- Uma segunda fonte, que teria assistido a uma sessão teste no meio do ano, comparou o filme a Uma Dobra no Tempo (2018), produção da Disney que teve prejuízo estimado em cerca de US$ 100 milhões.
- Essa mesma fonte reclamou que os protagonistas só chegam a Nárnia no terceiro ato.
- Um editor ou diretor experiente, talvez ambos, teria sido trazido discretamente para ajudar Gerwig na montagem.
- Haveria atrito entre Gerwig e Dan Lin, chefe de cinema da Netflix.
- A mudança de estreia de novembro de 2026 para fevereiro de 2027 teria sido motivada, em parte, por preocupações com a qualidade.
Sneider vai além e afirma que Gerwig teria tentado sair do projeto depois do sucesso de Barbie, sem que a Netflix a liberasse, e que não espera vê-la dirigindo uma eventual continuação.
A Netflix não comentou nenhuma dessas afirmações. Até a publicação deste texto, não há confirmação oficial de nenhum dos pontos acima.
O que não é novidade
Parte do que circulou como bomba já era conhecido. Em agosto, o próprio Sneider havia noticiado que executivos da Netflix, e não Gerwig, pediram filmagens adicionais depois de assistir a uma versão inacabada de cerca de duas horas. Na época, o NarniaWeb, uma das maiores publicações sobre Nárnia na internet, ouviu uma fonte próxima à produção que contestou o termo: seriam filmagens adicionais, e não refilmagens, sem envolver o elenco principal e com duração de no máximo duas semanas.
A diferença não é só semântica. Filmagens adicionais são rotina em produções desse porte, quase sempre previstas no cronograma. Refilmagens motivadas por pânico do estúdio são outra coisa. As duas versões seguem em disputa, e nenhuma delas foi confirmada oficialmente.
Também vale lembrar que sessões teste existem justamente para avaliar cortes inacabados, muitas vezes sem efeitos visuais finalizados. Num filme cujo clímax visual é a criação de um mundo inteiro, isso pesa.
Quem é a fonte
Jeff Sneider não é um anônimo de rede social. Trabalhou na Variety, no TheWrap e no Collider, e hoje apresenta o podcast Hot Mic e publica a InSneider. Ao longo dos anos, deu furos legítimos sobre escalações e projetos de Hollywood.
Mas sua trajetória também tem episódios que justificam cautela:
- 2013: foi demitido da Variety por comportamento considerado “não profissional”, segundo o TheWrap, depois de reagir de forma destemperada nas redes ao perder um furo sobre Interestelar.
- 2024: noticiou que Sydney Sweeney estaria no elenco de Day Drinker. A atriz negou publicamente, e Sneider insistiu que a negativa não era uma negativa de verdade.
- Setembro de 2026: depois de não ter resposta da equipe da atriz Inde Navarrette, publicou mensagens dizendo que poderia espalhar tudo o que ouvisse sobre ela e chamou isso, ele mesmo, de ameaça. Apagou as publicações e pediu desculpas, mas a comunidade r/MarvelStudios, a maior do Reddit sobre o tema, o baniu como fonte.
Nada disso prova que o relato sobre Nárnia seja falso. Jornalistas com reputação controversa às vezes acertam, e Sneider acertou ao noticiar em agosto que havia filmagens adicionais em andamento. Mas significa que suas afirmações, especialmente as baseadas em fontes anônimas e as que envolvem leituras sobre o estado de espírito de pessoas (“todos acham horrível”, “ela tentou sair”), devem ser lidas como relato, não como fato.
O telefone sem fio
Ao chegar ao Brasil, a história ganhou algumas camadas. Posts que circularam por aqui falam em orçamento de “quase US$ 300 milhões” (o número de Sneider é US$ 280 milhões; os 300 aparecem em textos de opinião americanos, como o de John Nolte no Breitbart) e apresentam a exigência de refilmagens como algo recente, quando a informação é de agosto. É justo dizer que boa parte dessas publicações traz o selo de “rumor”, o que é correto. O problema é que o selo costuma sumir no compartilhamento.
E o tal “terceiro ato”?
Aqui está o ponto mais curioso de toda a história, e o que mais interessa a quem leu o livro.
Uma das críticas atribuídas às fontes de Sneider é que Digory e Polly só chegam a Nárnia no terceiro ato. Acontece que O Sobrinho do Mago é estruturado exatamente assim. O livro de Lewis tem 15 capítulos. Antes de Nárnia existir, as crianças passam pela casa do tio André em Londres, atravessam o Bosque entre os Mundos, visitam as ruínas de Charn, despertam Jadis e voltam para uma Londres em caos com a feiticeira solta pelas ruas. Nárnia só começa a ser cantada por Aslam no fim do capítulo 8, já depois da metade do livro.
Ou seja: um filme fiel ao livro vai demorar a chegar em Nárnia. Isso não é um defeito de adaptação, é a forma do livro. O Sobrinho do Mago é uma história sobre a origem das coisas, e Lewis gasta metade dela mostrando um mundo que morreu (Charn) antes de mostrar um que nasce. A tentação de Digory com o sino, a fala de Jadis sobre a Palavra Deplorável e a decadência do tio André preparam o terreno para que a criação de Nárnia signifique alguma coisa.
Isso não invalida a crítica por completo. É possível que o problema relatado seja de ritmo e execução, e não de estrutura: um primeiro e segundo atos arrastados tornam qualquer espera insuportável. Mas, se a reclamação é simplesmente que Nárnia aparece tarde, quem fez a reclamação está reclamando do livro. E a Netflix sabia que livro estava adaptando quando escolheu começar por ele.
E o trailer?
A recepção foi dividida, e não unanimemente negativa como alguns relatos sugerem. O Hollywood Reporter registrou reações que iam de “o melhor trailer em anos” a críticas pesadas ao CGI. Houve comparações com Thor: Ragnarok, especialmente pelo uso de rock e pela paleta colorida, e o Cosmic Book News contabilizou milhares de “não gostei” no YouTube. No NarniaWeb, os comentários dos fãs mais antigos se dividem entre quem achou o trailer mágico e quem não reconheceu ali a Nárnia dos livros.
Parte da resistência, sobretudo em veículos conservadores americanos, já existia antes do trailer e tem mais a ver com a figura de Gerwig e com a escolha de Meryl Streep para a voz de Aslam do que com o filme em si. Esse é outro debate, que já ganhou textos aqui no Narniano.
O contexto na Netflix
O relato chega num momento turbulento para o estúdio. No mesmo dia, a Netflix passou por uma rodada de demissões, e Sneider afirma que o executivo de cinema Doug Belgrad, ex-chefe de estúdio da Sony, deixou a empresa. Ele também diz que Dan Lin e Bela Bajaria, chefe de conteúdo da Netflix, estariam em posição frágil por causa da queda nos números de audiência. São, de novo, afirmações da newsletter, sem confirmação.
O que é certo: O Sobrinho do Mago é a maior aposta de cinema da história da Netflix. O filme tem pré-estreias em IMAX em 10 de fevereiro de 2027, estreia nos cinemas em 12 de fevereiro e chega ao streaming em 2 de abril. David McKenna e Beatrice Campbell vivem Digory e Polly; Daniel Craig e Meryl Streep completam o elenco principal.
Então, o filme está em apuros?
Talvez. Há sinais concretos de que a produção passou por ajustes: filmagens adicionais em agosto, mudança de data, três editores creditados. Também há um relato com fontes anônimas, vindo de um jornalista que já acertou e já errou, e que tem histórico de conflitos públicos.
O que não dá é tratar rumor como sentença. Sessões teste ruins já precederam filmes ótimos, e filmes que pareciam garantidos já fracassaram. A resposta virá em fevereiro, e até lá o melhor que um leitor de Lewis pode fazer é reler o livro e lembrar que, em O Sobrinho do Mago, toda criação tem sua própria melodia.
Fontes
- Cosmic Book News: Greta Gerwig’s Narnia Reportedly In Serious Trouble At Netflix
- ComicBookMovie: New Report Claims “Everyone At Netflix Thinks [It’s] Awful”
- Toy People News: Netflix Reportedly Hated Greta Gerwig’s Narnia Cut
- Fandom Pulse: Report Says Test Screenings Went Badly
- The Wardrobe Door: Gerwig Goes Back to Narnia for Reshoots (or Not)
- Fiction Horizon: Is Greta Gerwig’s Narnia in Trouble?
- The Hollywood Reporter: Narnia Fans Split Over Trailer
- NarniaWeb: First Trailer for Narnia: The Magician’s Nephew
- TheWrap: Variety Fires Reporter Jeff Sneider
- Complex: Jeff Sneider e Inde Navarrette
- ComicBookMovie: Jeff Sneider Threatened Inde Navarrette




