Poucas parcerias intelectuais na história da literatura moderna foram tão fecundas quanto a amizade entre J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis. Reunidos nas noites de Oxford e nas mesas do lendário pub The Eagle and Child, os dois professores compartilhavam não apenas cerveja e cachimbo, mas os primeiros rascunhos da Terra-média e de Nárnia. No entanto, o vínculo entre eles ultrapassou o encorajamento mútuo e a leitura de manuscritos: os dois amigos decidiram imortalizar um ao outro no próprio tecido de suas ficções mais famosas.
Tolkien transformou a personalidade vibrante e as peculiaridades vocais de Lewis no guardião arbóreo Barbárvore em O Senhor dos Anéis. Lewis, por sua vez, fez de Tolkien o herói de sua Trilogia Cósmica, o filólogo Elwin Ransom.
C. S. Lewis na casca de Barbárvore: a voz de Fangorn
Barbárvore (Treebeard), o mais antigo dos Ents da Floresta de Fangorn, é um dos personagens mais cativantes criados por Tolkien. Ele personifica a sabedoria ancestral, a paciência com o ritmo da criação e uma repulsa solene à pressa moderna. Mas a inspiração para os maneirismos do gigante de madeira nasceu diretamente da convivência com Lewis.
Na biografia oficial de Tolkien, o historiador Humphrey Carpenter relata que o autor confidenciou a amigos próximos que a voz cavernosa, os pigarros constantes e a declamação ritmada de Barbárvore foram diretamente modelados no estilo de falar de C. S. Lewis. Lewis era conhecido nos corredores acadêmicos de Oxford por sua voz potente e ressonante, capaz de dominar uma sala com exclamações entusiasmadas e risadas estrondosas. Tolkien incorporou esses traços aos bordões do Ent, transformando o hábito de Lewis de pensar em voz alta na marcha ponderada dos pastores de árvores.
Quando Barbárvore solta seus clássicos resmungos (“Hrum, hroom”) e insiste que não se deve ter pressa para dizer algo que valha a pena ser ouvido, o leitor atento escuta os ecos das tardes em que Lewis gesticulava apaixonadamente sobre poesia medieval diante de uma lareira.
J. R. R. Tolkien como Elwin Ransom: o herói dos idiomas e do espaço
A homenagem de Lewis a Tolkien começou a partir de um desafio real. Frustrados com a escassez de boas histórias contemporâneas de fantasia e ficção científica, Lewis propôs ao amigo um pacto célebre: “Se eles não escrevem os livros que nós gostamos de ler, teremos de escrevê-los nós mesmos”. Tiraram na sorte: coube a Tolkien a viagem no tempo (que originou seus rascunhos inacabados de The Lost Road) e a Lewis a viagem espacial.
Assim nasceu a Trilogia Cósmica (Além do Planeta Silencioso, Perelandra e Aquela Força Medonha). Para conduzir essa odisseia teológica entre planetas, Lewis concebeu o protagonista como um reflexo direto de Tolkien: o Dr. Elwin Ransom.
Ransom não é um explorador militar ou um aventureiro audaz, mas um discreto professor de filologia da Universidade de Cambridge, especialista em línguas germânicas e fascinado pela gênese dos dialetos antigos, a mesmíssima profissão e paixão de Tolkien em Oxford. Em Malacandra (Marte), é justamente a perícia linguística e a reverência de Ransom pelas palavras que o salvam da morte e lhe permitem dialogar com criaturas celestiais.
Até o nome foi escolhido com carinho filológico: “Elwin”, na etimologia anglo-saxônica, significa “amigo dos elfos” (Ælfwine), um aceno direto ao universo mitológico que Tolkien já desenvolvia em segredo em seus manuscritos de O Silmarillion.
Um tributo que resiste ao tempo
Essas homenagens cruzadas revelam um nível de camaradagem que desafia a frieza do meio acadêmico. Ao colocar Lewis no centro de Fangorn, Tolkien reconheceu o amigo como alguém que, tal qual um Ent, despertava coisas que pareciam adormecidas e protegia o que havia de nobre na imaginação. Ao projetar Tolkien para além da atmosfera terrestre, Lewis homenageou a integridade moral, a devoção cristã e o gênio vocabular de seu companheiro mais próximo.
Nas páginas da literatura universal, os dois gênios garantiram que suas conversas nunca teriam fim: enquanto houver leitores dispostos a caminhar sob a sombra de Barbárvore ou a contemplar as estrelas ao lado de Ransom, a amizade de Oxford permanecerá viva.



