Imagine batizar a Terra em 1938 com uma metáfora puramente teológica e a astrofísica descobrir, quase 90 anos depois, que o apelido é literalmente verdadeiro.
Em Além do Planeta Silencioso, primeiro volume de sua clássica Trilogia Cósmica, C. S. Lewis deu um nome perturbador ao nosso planeta: Thulcandra, o “Planeta Silencioso”. Na ficção, seres de outros mundos evitam a Terra porque ela foi colocada em uma espécie de quarentena moral e cósmica após a rebelião de seu governante. Parecia apenas uma metáfora brilhante sobre o pecado e o isolamento espiritual humano.
Acontece que a cosmologia moderna acaba de esbarrar nessa mesma solidão…só que de forma física.
O vazio ao nosso redor
A discussão científica parte de um dos maiores impasses da cosmologia moderna: a Tensão de Hubble. Em termos simples, quando os astrônomos medem a taxa de expansão do cosmos através da radiação cósmica de fundo (o universo primitivo), encontram um valor; quando medem o universo local através de supernovas, o espaço parece expandir-se a uma velocidade superior.
Para tentar conciliar esta discrepância sem recorrer a uma reformulação drástica das leis da física, alguns astrofísicos, incluindo estudos associados a investigadores como o Dr. Indranil Banik e equipas que analisam oscilações acústicas de bárions, têm investigado a fundo a hipótese do chamado Vazio KBC (KBC Void), proposto inicialmente em 2013.
A teoria sugere que a Via Láctea e o nosso grupo de galáxias podem estar situados próximo do centro de uma vasta sub densidade cósmica, uma região com cerca de 1 a 2 mil milhões de anos-luz de diâmetro onde a densidade média de matéria e galáxias seria cerca de 20% menor do que a do restante universo observável. Por haver menos matéria nesta vizinhança cósmica em grande escala, a força gravitacional exercida pela matéria circundante puxaria as galáxias para fora, criando a ilusão ótica de uma expansão local acelerada.
Embora esta hipótese permaneça sob intenso debate e esteja longe de constituir um consenso entre os cosmólogos, já que desafia premissas do modelo cosmológico padrão, ela coloca uma possibilidade fascinante: a de que habitamos, em termos de macro escala cósmica, uma região invulgarmente desértica do cosmos.
Intuição poética ou parábola da natureza?
Lewis não tinha telescópios espaciais nem sabia o que eram oscilações acústicas de bárions. No entanto, sua imaginação capturou algo que a ciência agora mapeia em números: há algo profundamente estranho com o lugar da Terra no mapa do universo.
Não se trata de dizer que o pecado cavou um buraco gravitacional no cosmos. Mas como Francis Bacon costumava lembrar, Deus escreveu dois livros: as Escrituras e a Criação. Para os leitores de Lewis, é quase poético notar como a geografia do universo parece espelhar a nossa própria condição: vivemos num deserto local, silencioso e apartado da grande sinfonia exterior.
Em Além do Planeta Silencioso, o isolamento não é o fim da história. O próprio Criador quebra a barreira e pisa no solo de Thulcandra para resgatá-la. A astrofísica pode ter provado que vivemos em um vazio cósmico real, mas como Lewis nos ensinou, o silêncio nunca foi a última palavra.
Fontes: Science Focus e Live Science.




