Nárnia aparece entre os livros que todo mundo finge ter lido (e Senhor dos Anéis também)

Uma pesquisa britânica recente, hoje reproduzida por veículos como o NSC Total, trouxe à tona um hábito nada nobre dos leitores: fingir que leram. E entre as obras mais vítimas dessa pequena mentira social estão duas que interessam diretamente a este espaço, As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis, e O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien.

A pesquisa

O levantamento foi conduzido pela ONG britânica The Reading Agency, que ouviu 2 mil adultos no Reino Unido. O resultado expôs um comportamento comum: 41% dos entrevistados admitiram ter mentido ao menos uma vez sobre a quantidade ou os títulos de livros que disseram ter lido. Entre os mais jovens, na faixa de 18 a 24 anos, esse número sobe para impressionantes 64%.

A mentira, no entanto, não se limita a exagerar o volume de leitura. Muitas vezes ela envolve assumir a autoria de uma experiência que nunca aconteceu: ter assistido ao filme e depois falar do livro como se o tivesse lido. Foi justamente esse fenômeno que a pesquisa quis medir, pedindo aos participantes que apontassem, entre adaptações famosas, quais títulos eles alegam conhecer na forma impressa quando na verdade só viram nas telas.

Nárnia no top 3

A saga de C.S. Lewis aparece na terceira posição da lista, atrás apenas dos romances de James Bond, de Ian Fleming, e da trilogia de Tolkien. Isso significa que As Crônicas de Nárnia está entre as três obras mais faladas sem terem sido, de fato, lidas por quem fala delas.

Há algo revelador nesse dado. Nárnia não é apenas uma franquia de fantasia que virou filme de sucesso comercial no início dos anos 2000. É, antes disso, uma obra profundamente literária, escrita por um professor de Oxford e Cambridge que pensava em imagens antes de pensar em enredos, e que construiu ali uma teologia do maravilhoso quase impossível de perceber assistindo apenas às adaptações cinematográficas. Quem só viu os filmes perde justamente o que haveria de mais valioso: a voz do narrador, as digressões, o senso de mistério moral que Lewis tecia entre uma aventura e outra.

Tolkien, o grande vencedor (e vítima) da lista

Se Nárnia ocupa o terceiro lugar, O Senhor dos Anéis fica em segundo, atrás apenas de James Bond. Segundo os dados divulgados, um em cada quatro entrevistados afirmou ter lido a trilogia de Tolkien mesmo tendo apenas acompanhado a história no cinema. Entre os mais jovens, esse índice de mentira sobre a obra de Tolkien chega a 25%, segundo apontou a cobertura internacional do mesmo levantamento.

É uma ironia e tanto. Tolkien é, ao lado de Lewis, um dos maiores nomes da literatura fantástica do século 20, e os dois compartilharam mesa nos encontros dos Inklings, em Oxford, onde liam em voz alta seus manuscritos e debatiam mito, linguagem e fé cristã. As adaptações cinematográficas de Peter Jackson, aclamadas por sua fidelidade visual, parecem ter feito seu trabalho bem demais: convenceram gerações inteiras de que já conhecem a Terra-média, quando na verdade só viram sua superfície.

O que isso diz sobre a leitura hoje

O levantamento também mostrou que o interesse pela leitura não desapareceu. Cerca de 67% dos participantes disseram desejar ler mais do que leem atualmente. O obstáculo, segundo 48% deles, é a rotina corrida, e 35% relataram dificuldade em encontrar obras que realmente prendam sua atenção.

Talvez o problema não seja falta de vontade, mas a familiaridade traiçoeira que o cinema oferece. É fácil confundir reconhecer uma história com tê-la, de fato, habitado por dentro, como só a leitura permite. Lewis e Tolkien, cada um a seu modo, escreveram para serem lidos devagar, relidos, meditados. As telas contam suas histórias, mas não substituem a experiência de atravessar as páginas onde essas histórias realmente vivem.

Fica o convite, então, tão simples quanto antigo: antes de citar Aslan ou Frodo numa conversa, que tal abrir o livro?


Com informações do NSC Total e da BBC.

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