Rei Franco em Nárnia: a etnia do primeiro rei foi uma questão para C. S. Lewis?

Sempre que uma adaptação literária escolhe atores que diferem das representações clássicas de ilustrações históricas, as redes sociais entram em ebulição com acusações de traição ao cânone. Com as movimentações de elenco para a nova versão de O Sobrinho do Mago, dirigida por Greta Gerwig, a escalação de Kobna Holdbrook-Smith como o cocheiro Franco (ou Frank, dependendo da tradução), que mais tarde se tornará o primeiro monarca de Nárnia, trouxe esse ruído à tona. As gravuras originais de Pauline Baynes nos anos 1950 mostravam um cocheiro branco, refletindo as referências visuais britânicas daquela época. No entanto, é fundamental separar convenções de desenho de elementos que são genuinamente vitais para a estrutura narrativa e teológica de C.S. Lewis.

Em Nárnia, o cocheiro Franco não é definido por um fenótipo, mas pela sua condição social e pela sua postura diante do sagrado.

A dignidade do homem comum nas ruas de Londres

Antes de ser coroado Rei Franco, Frank é simplesmente um trabalhador da classe operária londrina. Ele é alguém habituado à lida dura das ruas da metrópole, ganhando o sustento diário ao volante de sua carruagem e cuidando com afeto de seu cavalo, Morango. Historicamente, a presença de homens negros inseridos nas classes trabalhadoras de Londres na virada e na primeira metade do século XX é documentada, sobretudo no setor de transportes urbanos e ofícios manuais. Escalar um ator negro para esse papel mantém intacta a verossimilhança sociológica de um trabalhador comum da metrópole britânica.

O papel fundamental de Franco no início da história é servir de contraponto moral à arrogância decadente da nobreza e da intelectualidade britânicas. Enquanto o Tio André representa o intelectual arrogante e covarde que tenta explorar o novo mundo por pura ganância, e a Rainha Jadis personifica a tirania imperialista e destruidora, Franco é o homem simples que preserva a honra e o bom senso do cotidiano operário. Quando o caos se instala no vazio antes da criação de Nárnia, ele é o único que mantém a calma, entoa canções e se recusa a sucumbir ao histerismo.

O novo Adão diante da Criação cantada

Coroação do Rei Franco e da Rainha Helena

A dimensão teológica de O Sobrinho do Mago bebe diretamente dos paralelos com o livro de Gênesis. Nárnia não é criada a partir de matéria pré-existente, mas pelo canto soberano de Aslam a partir do nada, a clássica creatio ex nihilo narrada na Bíblia. Quando o Leão entoa a melodia que faz a grama brotar, as árvores caminharem e os pares de animais receberem o sopro de fala, o cocheiro não tenta domesticar ou mercantilizar o milagre. Franco reconhece a majestade de Aslam de imediato, reagindo com o temor e a reverência adequados.

Ao convocar Franco e trazer sua esposa Helena para o novo mundo, Aslam os estabelece como uma espécie de Adão e Eva narnianos. Não há uma criação física do pó para eles, mas o princípio de comunhão e governo compartilhado de Gênesis é estabelecido com rigor, incluindo a co-regência e a mordomia cristã (tema caro para a teologia). Quando Aslam questiona se o antigo cocheiro é capaz de governar as criaturas com justiça, trabalhar a terra com as próprias mãos e tratar as bestas falantes não como propriedade, mas como súditos livres, o Leão define o que é a verdadeira monarquia sob a ótica cristã de Lewis: autoridade é sinônimo de serviço, humildade e trabalho.

Uma coroa fundamentada no caráter, não no sangue

As perguntas de Aslam para coroar Franco em momento algum envolvem heráldica, pedigree genético ou aparência exterior. Elas exigem retidão ética, ausência de tirania e disposição para o sacrifício. Franco torna-se dessa forma o primeiro rei de Nárnia precisamente porque é um homem justo e temente a Deus, despido das afetações e corrupções que marcaram o velho mundo.

Prender a essência do Rei Franco a traços de ilustrações editoriais de meados do século passado é ignorar o que move a literatura de Lewis. O que sustenta o personagem nas páginas e na teologia moral de Nárnia é sua virtude universal. Portanto, seja qual for o ator a vestir o casaco gasto do cocheiro londrino diante do canto de Aslam, desde que sua integridade, simplicidade e coração reto estejam lá, o primeiro rei de Nárnia continuará sendo exatamente aquele que Lewis escreveu.

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