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Você já leu ‘A abolição do homem’, de C. S. Lewis?

Produzimos homens sem peito e esperamos deles virtude e iniciativa. Caçoamos da honra e nos chocamos ao encontrar traidores entre nós. Castramos e ordenamos que os castrados sejam férteis.

Indo na contramão do que se espera do autor de livros infantis, ‘A abolição do homem’ é um dos vários tratados de C.S. Lewis sobre filosofia, e neste livro, mais especificamente, de ética e moral. 

Sua relevância para a área garantiu para ‘A abolição’ o sétimo lugar na lista da National Review dos cem melhores livros de não-ficção do século XX. Mas, de onde surgiu a ideia para este livro? 

Enquanto era professor em Oxford, Lewis era convidado frequentemente a fazer críticas de livros. Alguns deles em sua área de especialidade (Literatura Medieval e Renascentista) e outros em diferentes matérias. E entre os livros didáticos que ele recebeu, um o preocupou tanto que terminou escrevendo um livro em resposta. 
 
‘O Livro Verde’, como foi chamado por Lewis, trazia para os alunos de escolas públicas do Reino Unido uma ideia revolucionária, mas tão antiga quanto o mundo: a ideia de que as palavras que usamos para descrever o mundo ‘na verdade’ não dizem respeito aos objetos exteriores, mas ‘apenas’ aos sentimentos do interlocutor. E Lewis percebeu naquele livro o perigo do crescente pós-modernismo. 

É interessante notar que, apesar de discordar dos autores do Livro Verde (que ganham os apelidos de Gaius e Titius), Lewis não acha que eles o fizeram por má-fé. Mas, percebendo os prejuízos morais que este relativismo poderia causar nos alunos, Lewis vai desenvolver sua resposta nos três capítulos de ‘A abolição do homem’.

Durante a leitura, ele vai explicar o que seria este relativismo e como estava sendo exposto nos livros didáticos do Reino Unido. Dentro deste contexto, ele vai usar a antropologia moral dos clássicos para explicar como esta ideia acabaria produzindo pessoas sem bússola moral (dando exemplos de Aristóteles a Agostinho). Na antiguidade, a mente era o centro dos pensamentos, e o estômago era o que guiava os apetites e as atitudes impulsivas (como aquele friozinho na barriga quando bate o medo), enquanto o peito era o centro das atitudes morais. Era ele quem precisava ser treinado para que o homem pudesse tomar as escolhas certas. Mas, com a destruição deste centro moral, resta ao homem apenas armazenar informação na cabeça e agir impulsivamente de acordo com seus apetites. Sem peitos bem treinados, restam homens sem convicção. Homens sem direção. Homens sem peito. 

E isto também teria consequências na sociedade. O homem, querendo ser livre dos preceitos morais, se torna escravo da Natureza e de outros homens. A ‘liberdade’ dos preceitos morais termina virando escravidão, e portanto, a abolição do próprio homem. 

Revisitar C. S. Lewis é essencial para entender o cenário de 2019. Cheio de relativizações, emocionalismo, massas de manobra, discussões sobre ‘Escola sem partido’ e falta de postura moral de parte dos governos e governantes.  

A tarefa do educador moderno não é derrubar florestas, mas irrigar desertos.


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