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Bem-vindo a ‘terra da felicidade’ (um poema recifense)

Na entrada da cidade li certo cartaz que dizia: 
“Bem-vindo a terra da felicidade”
Emocionado por tão nobre acolhida
Andei por suas ruas buscando a fortuna prometida
Com expectação olhei cada beco e cada avenida, mas que encontrei?
Muros pichados, bancos quebrados
E inocentes sendo assaltados
“Ah”, me diziam
“Chegaste na época errada”
“A felicidade só faz casa nessa cidade no mês de Fevereiro”
Seguindo tão curioso conselho, no mês segundo voltei
E uma grande festa encontrei
Mas sorrisos secos e tristes foi o que observei
E uma murcha felicidade ao redor de um funesto galo rei
E ao seguir o seu trajeto
As ruas colecionavam dejetos
E se escutava o som de muitos pés que corriam a altos tetos
De onde suas cabeças desnorteadas olhavam cobiçosamente para o próximo como objeto
Pois a tal promessa de panaceia não passava de propaganda vazia
E assim como a garoa de verão entulhava os rios da cidade de lixo 
A esperança da momentaneidade hedonística acumulada o ano todo por seus habitantes descia completamente pela pia
E então, percebi meu engano,
Me senti como quem reconhece uma ferida esquecida no espelho
Achei que a felicidade morava em vestimentas galantes
Que residia em repetições rítmicas dançantes
E que fazia domicílio em grandes aglomerações andantes
Mas ela habita em um outro lugar,
Em um órgão composto de carne, sim
Mas que não a celebra loucamente
A verdadeira felicidade só pode habitar na quietude cheia de vida dos corações de pedra que foram transformados em carne, 
que ecoam batidas rítmicas de uma Cidade Eterna, 
que anseiam em alegre esperança pela chegada de seu Rei,
e que buscam comunicar a sua verdade de vida com a alegria de quem ama, 
porque conheceu o Amor.
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