No capítulo 8 de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, na toca dos Castores, o Sr. Castor conta às crianças algo que soa estranho aos ouvidos de um leitor cristão: a Feiticeira Branca não é humana. De um lado, ela descende de Lilith, a quem o Sr. Castor identifica como a primeira esposa de Adão e “um dos Jinn”. Do outro lado, descende dos gigantes. “Não há uma gota de sangue humano de verdade na Feiticeira”, ele resume.
Para muitos leitores, a pergunta surge de imediato: Lewis acreditava realmente nisso? Afinal, a história de Lilith não está na Bíblia. De onde ela vem? E o que um cristão convicto como Lewis fazia usando esse tipo de figura?
A resposta é mais sofisticada, e mais reveladora, do que parece à primeira vista.
De onde vem Lilith
Lilith não aparece nas Escrituras, cristãs ou hebraicas, com o papel de “primeira esposa de Adão”. A figura que conhecemos foi construída no Midrash judaico medieval, especialmente no Alfabeto de Ben Sirá, texto compilado entre os séculos VIII e X d.C. Segundo essa tradição, Lilith teria sido criada ao mesmo tempo que Adão, recusado se submeter a ele, abandonado o Éden e se tornado uma figura demoníaca associada à noite e ao caos.
Há também uma menção oblíqua em Isaías 34:14, onde a palavra hebraica lilit aparece num contexto de desolação e criaturas noturnas. A maioria das traduções modernas verte o termo como “coruja” ou “criatura da noite”, mas foi a tradição popular judaica quem consolidou a associação com a figura mitológica.
Lewis conhecia essa tradição. Era medievalista de formação, especialista em literatura inglesa medieval e renascentista. Lilith não era novidade para ele: era, antes, uma velha conhecida dos textos que estudou durante décadas.
Lewis acreditava em Lilith? A resposta direta
Não. Lewis não afirmava crer em Lilith como personagem histórica ou teológica real.
Era anglicano ortodoxo, profundamente comprometido com as Escrituras e com a tradição cristã histórica. Sua apologética, em obras como Cristianismo Puro e Simples e O Problema do Sofrimento, opera sempre a partir do cânon bíblico e da teologia apostólica. Não há nenhum texto de Lewis, nenhuma carta, nenhum ensaio, em que ele afirme crer na historicidade de Lilith ou na veracidade teológica do Midrash que a criou.
Então por que ele a usou?
Mito e doutrina em Lewis
Para responder essa pergunta é preciso entender uma das ideias mais centrais de Lewis: a distinção entre matéria mítica e afirmação doutrinária. Lewis pensava com categorias que poucos cristãos contemporâneos usam com a mesma clareza.
O Evangelho como mito verdadeiro. Lewis argumentava, na famosa conversa com J.R.R. Tolkien e Hugo Dyson em setembro de 1931, que o Evangelho é o mito que “aconteceu de verdade”. Enquanto os mitos pagãos de morte e ressurreição (Osíris, Balder, Adônis) eram ecos, sombras, anseios do coração humano apontando para algo real, a ressurreição de Cristo era o evento histórico que dava sentido a todas essas sombras.
Mitos que apontam para o verdadeiro. Abaixo do Evangelho, Lewis reconhecia mitos pagãos e folclóricos como veículos legítimos de verdades parciais. Não que fossem revelação, mas que captavam, de forma imperfeita, algo real sobre a natureza humana, sobre o bem e o mal, sobre o transcendente.
Matéria mítica literária. E então havia o que Lewis tratava, na prática, como um estoque de matéria mítica disponível para o artista: figuras como faunos, centauros, dragões, e Lilith. Essas figuras não exigem crença para serem usadas. Pertencem ao imaginário humano compartilhado, disponível para o escritor mobilizar com fins narrativos e teológicos, sem com isso afirmar sua realidade histórica.
O que Lilith significa em Nárnia
Quando Lewis faz a Feiticeira Branca descender de Lilith, está fazendo uma declaração simbólico-teológica, não histórica. E essa declaração é precisa: a Feiticeira representa a rebelião primordial. O orgulho que recusa qualquer autoridade acima de si, que rejeita a ordem criada, que prefere o próprio domínio a qualquer forma de amor ou entrega.
É possível ler nisso um contraste com Maria, que disse “sim” à ordem divina onde Lilith, na tradição que Lewis herda, disse “não”. Não é uma equivalência que Lewis declara explicitamente no texto, mas é uma leitura que o próprio material simbólico sustenta: antes de ser uma afirmação sobre cosmologia ou genealogia espiritual, a linhagem de Lilith é uma afirmação sobre caráter. A Feiticeira é o que é porque descende de quem recusou ser criatura.
Não por acaso, a contraimagem é Aslam, que, sendo mais do que criatura, escolhe se tornar cordeiro, se entregar, morrer. A Feiticeira e Aslam não são apenas antagonistas narrativos: são teologias encarnadas em ficção.
A influência de George MacDonald
Vale notar que Lewis não foi o primeiro escritor cristão a usar Lilith ficcionalmente. George MacDonald, a quem Lewis chamava de seu “mestre” e cuja obra Phantastes foi decisiva para sua conversão, escreveu um romance inteiro intitulado justamente Lilith (1895), em que a personagem é explorada em profundidade como símbolo do orgulho e da recusa do amor.
Lewis estava, conscientemente, bebendo dessa tradição. Usar Lilith em Nárnia era uma homenagem a MacDonald tanto quanto um recurso narrativo.
Uma lição mais ampla: a imaginação batizada
O uso de Lilith revela algo essencial sobre o projeto literário de Lewis: ele acreditava que o cristianismo não precisava rejeitar o imaginário humano. Precisava batizá-lo. Ou seja, receber as formas, os símbolos, as figuras que a imaginação humana sempre usou para dar sentido ao mundo, e habitá-las com verdade.
Faunos e centauros não precisam existir zoologicamente para que a história de Nárnia seja verdadeira. Gigantes e bruxas não precisam existir literalmente para que a batalha entre o bem e o mal seja real. E Lilith não precisa ter sido a primeira esposa de Adão para que a Feiticeira Branca seja uma figura verdadeira do orgulho que destrói.
Lewis sabia, como todo grande escritor cristão sabe, que a ficção verdadeira não mente ao inventar. Ela aponta para uma realidade mais profunda do que qualquer factualidade histórica.
Conclusão
Lewis não acreditava em Lilith como figura histórica ou doutrinária. Mas a usou como símbolo eficaz: herdado da tradição judaica medieval, filtrado por George MacDonald, e transplantado para o solo de Nárnia com precisão teológica.
Para ele, a distinção entre crença doutrinária e uso literário era clara. A ficção tem o direito de habitar mitos, desde que, ao fazê-lo, esteja a serviço da verdade. E a Feiticeira Branca, filha de Lilith, serve admiravelmente a uma verdade que a Bíblia ensina em toda parte: o orgulho que recusa se curvar não pode reinar. Não em Nárnia. Não em nenhum lugar onde Aslam esteja rugindo.



