Preste atenção à próxima discussão que você presenciar, seja ela qual for. Um casal brigando sobre quem deveria ter lembrado o aniversário de quem, dois motoristas discutindo depois de uma batida ou dois colegas de trabalho disputando o crédito por um projeto. Quase sempre, em algum momento, alguém diz uma versão da mesma frase: “Você não gostaria que fizessem isso com você”. Ou: “Esse lugar já era meu, eu cheguei primeiro”. E o outro lado, quase sempre, não responde: “E daí? Esse padrão não vale”. Em vez disso, tenta explicar por que, na verdade, não violou padrão algum.
É exatamente aqui que Lewis começa o primeiro bloco de Cristianismo Puro e Simples. E esse é, talvez, o argumento mais simples e mais difícil de refutar de todo o livro.
Todo mundo já recorreu a esse padrão, mesmo sem perceber
A grande maioria das pessoas, em qualquer cultura, não passa o dia tentando provar que o certo e o errado não existem. As pessoas discutem o tempo todo sobre quem está do lado certo de um padrão que ambas presumem existir. Isso vale tanto para uma criança que reclama “não é justo” antes mesmo de aprender o que é justiça em teoria quanto para adultos negociando um contrato.
Se o certo e o errado fossem apenas uma questão de preferência, como dizer “eu gosto de chocolate, você gosta de morango”, ninguém tentaria convencer o outro de nada. Diria apenas: “Eu penso assim, você pensa de outro jeito, cada um na sua”. Mas não é isso que acontece. As pessoas argumentam como se esperassem que o outro lado reconhecesse o mesmo padrão, ainda que a contragosto.
A pergunta que dá peso ao argumento
É nesse ponto que Lewis dá o passo que transforma uma observação sobre o comportamento cotidiano em um argumento com consequências históricas concretas. Ele pergunta: se o Certo não é algo real, algo que existe de verdade e que todos devemos reconhecer, no fundo, com que direito dizemos que os nazistas estavam errados?
A força da pergunta está em seu contexto histórico. Lewis desenvolveu esse argumento na década de 1940, dirigindo-se a uma audiência inglesa em plena guerra contra a Alemanha nazista. Era um público que tinha todos os motivos para acreditar, com absoluta convicção, que aquele regime era simplesmente mau.
Mas Lewis inverte a questão: essa mesma convicção, tão evidente e urgente, só faz sentido se houver um padrão moral real por trás dela. Um padrão que transcenda as sociedades, que não tenha sido inventado pela Inglaterra nem estabelecido por consenso. Até os piores regimes procuram contornar esse padrão por meio de justificativas ardilosas, tentando apresentar suas ações como se fossem justas. Isso revela como a linguagem da justiça continua sendo importante até para quem a viola.
Se esse padrão não existisse, dizer “os nazistas estavam errados” teria o mesmo peso de dizer “os nazistas tinham mau gosto”. Seria apenas uma opinião subjetiva. Mas ninguém, nem naquela época nem hoje, trata a condenação do nazismo dessa maneira.
De onde essa lei não vem
O passo seguinte do argumento é examinar e descartar algumas das explicações mais óbvias. A Lei Moral não pode ser explicada apenas pela evolução, porque, para Lewis, explicar a origem de nossos impulsos de sobrevivência não é o mesmo que explicar por que temos obrigações morais.
O instinto é um impulso que nos inclina a agir de determinada maneira. A Lei Moral, por sua vez, funciona como uma espécie de árbitro interior, dizendo o que deveríamos fazer — muitas vezes, mandando-nos resistir a um impulso mais forte para seguir outro que consideramos correto.
Ela também não pode ser explicada apenas pela sociedade ou pela cultura, porque julgamos sociedades inteiras, inclusive a nossa, com base em padrões que consideramos superiores aos costumes de qualquer cultura particular. Foi nesse sentido que o mundo pôde considerar legítimos os julgamentos de Nuremberg, em vez de tratá-los simplesmente como os vencedores impondo suas preferências aos vencidos.
Para Lewis, a explicação que melhor dá conta dessa realidade é que a Lei Moral foi estabelecida por Alguém e não é apenas uma invenção humana.
A parte que Lewis não deixa você esquecer
Aqui está um detalhe que muitos resumos desse argumento deixam de lado: Lewis não recorre à Lei Moral para fazer o leitor se sentir bem consigo mesmo. Pelo contrário, ele faz questão de lembrar que ninguém, nem mesmo quem está lendo o livro, segue essa lei perfeitamente.
Se por acaso existisse alguém que a obedecesse integralmente, escreve Lewis, seria melhor que essa pessoa lesse outro livro, porque nada do que viria a seguir lhe diria respeito.
O argumento moral, em Lewis, não é uma vitória apologética fácil. É justamente o contrário: primeiro, ele procura convencer o leitor de que existe um padrão moral real; depois, mostra que o próprio leitor já falhou em segui-lo mais vezes do que gostaria de admitir.
É essa combinação — a existência de um padrão real e o nosso fracasso em cumpri-lo — que abre espaço para o restante do livro e para a constatação de que falhar diante de uma lei real é justamente o tipo de problema que não conseguimos resolver sozinhos.
Fica, então, a pergunta que Lewis nos deixaria ao final desta leitura: da próxima vez que você disser “isso não é justo”, vai parar para refletir sobre a origem dessa certeza? Será que ela não aponta para a existência de um Legislador?




