Se a moral é relativa, com que direito condenamos os nazistas? O argumento de C. S. Lewis

Preste atenção na próxima discussão que você presenciar, qualquer uma. Um casal brigando sobre quem devia ter lembrado o aniversário de quem, dois motoristas discutindo depois de uma batida, dois colegas de trabalho disputando o crédito de um projeto. Quase sempre, em algum momento, alguém diz uma versão da mesma frase: “você não gostaria que fizessem isso com você”. Ou: “esse lugar já era meu, eu cheguei primeiro”. E o outro lado, quase sempre, não responde “e daí, o padrão não vale”. Ele tenta explicar por que, na verdade, não quebrou padrão nenhum.

É exatamente aqui que Lewis começa o primeiro bloco de Cristianismo Puro e Simples. E é, talvez, o argumento mais simples e mais difícil de descartar de todo o livro.

Todo mundo já apelou para esse padrão, mesmo sem perceber

A grande maioria das pessoas, em qualquer cultura, não passa o dia discutindo para provar que o certo e o errado inexistem. As pessoas discutem, o tempo todo, sobre quem está do lado certo de um padrão que ambas assumem existir. Isso vale para a criança que reclama “não é justo” antes mesmo de aprender o que é justiça em teoria, e vale para adultos numa negociação de contrato.

Se o certo e o errado fossem só preferência, do tipo “gosto de chocolate, você gosta de morango”, ninguém tentaria convencer o outro de nada. Diria apenas: “eu penso assim, você pensa assado, cada um na sua”. Mas não é isso que acontece. As pessoas argumentam como se esperassem que o outro lado reconhecesse o mesmo padrão, ainda que relutantemente.

A frase que faz o argumento pesar

É nesse ponto que Lewis dá o passo que transforma uma observação de comportamento cotidiano num argumento com consequência histórica real. Ele pergunta: se o Certo não é uma entidade real, algo que existe de verdade e que todos devemos, no fundo, reconhecer, com que direito dizemos que os nazistas estavam errados?

A força da pergunta está em seu contexto histórico. Lewis escreveu isso nos anos 1940, falando para uma audiência inglesa em plena guerra contra a Alemanha nazista, um público que tinha toda razão de sentir, com convicção total, que aquele regime era simplesmente mau. Mas Lewis vira a mesa: essa mesma convicção, tão óbvia e tão urgente, só faz sentido se existir um padrão moral real por trás dela. Um padrão transcendente que não foi inventado pela Inglaterra nem votado por consenso, e que até os piores regimes tentavam contornar por meio de justificativas ardilosas, provando que sentiam a necessidade de fingir obediência a um critério de justiça. Se não existisse esse padrão real, dizer “os nazistas estavam errados” teria o mesmo peso de dizer “os nazistas tinham mau gosto”. Uma opinião subjetiva. E ninguém, nem então, nem hoje, trata a afirmação dessa forma.

De onde essa lei não vem

O passo seguinte do argumento é eliminar as explicações mais óbvias. Não pode vir só da evolução, porque a evolução explica impulsos de sobrevivência, não obrigações. O instinto é apenas um impulso sentindo o que você quer fazer; a Lei Moral é o árbitro interior dizendo o que você deveria fazer, muitas vezes ordenando apoiar o instinto mais fraco contra o mais forte.

E não pode vir só da sociedade ou da cultura, porque nós julgamos sociedades inteiras, inclusive a nossa, por padrões que parecem estar acima de qualquer cultura particular. Foi assim que o mundo pôde dizer que os julgamentos de Nuremberg eram legítimos, e não apenas os vencedores impondo sua própria preferência aos vencidos. A explicação que sobra, para Lewis, é que essa Lei foi inscrita em nós por Alguém, e não inventada por nós.

A parte que Lewis não deixa você esquecer

Aqui está o detalhe que a maioria dos resumos desse argumento pula: Lewis não usa a Lei Moral para fazer o leitor se sentir bem consigo mesmo. Ele faz questão de lembrar que ninguém, nem mesmo quem está lendo o livro, realmente segue essa lei à risca. Se por acaso existir alguém que segue, escreve ele, é melhor que essa pessoa vá ler outro livro, porque nada do que vem a seguir vai lhe dizer respeito.

O argumento moral, em Lewis, não é uma vitória apologética barata. É o contrário: primeiro ele te convence de que existe um padrão real, e só depois te mostra que você mesmo já falhou nele mais vezes do que gostaria de admitir. É essa combinação, padrão real mais fracasso real, que abre espaço para o resto do livro, e para a constatação de que fracassar diante de uma lei real é exatamente o tipo de problema que a gente não resolve sozinho.

Fica, então, a pergunta que Lewis faria para você fechar este texto: da próxima vez que disser “isso não é justo”, você vai parar para reconhecer de onde vem essa certeza? Será que isso não aponta para a existência de um Legislador?

Deixe o seu comentário

Rolar para cima