Do Éden à Nova Jerusalém: o simbolismo das árvores em ‘1917’

Há filmes de guerra que se contentam em mostrar o horror. E há filmes de guerra que, sem abrir mão do horror, encontram uma linguagem visual capaz de carregar algo maior. 1917, de Sam Mendes, pertence à segunda categoria, e a chave dessa linguagem, para mim, não está nas trincheiras nem no célebre plano sequência de Roger Deakins. Está surpreendentemente na bucólica visão das árvores.

Este filme nasceu de uma herança pessoal. Mendes cresceu ouvindo o avô, Alfred Mendes, contar as próprias experiências como mensageiro na Primeira Guerra, e transformou essa herança oral em uma missão contra o relógio: dois soldados britânicos, Schofield e Blake, precisam atravessar o território inimigo para entregar uma ordem capaz de salvar mil e seiscentas vidas, entre elas a do irmão de Blake. É uma corrida onde cada segundo pesa, e onde a câmera, ao recusar o corte, recusa também qualquer descanso ao espectador. Estamos ali, no barro, no arame farpado, na respiração ofegante, do início ao fim.

E é exatamente contra esse fôlego contínuo que as árvores funcionam como pontuação. Elas marcam, silenciosamente, onde a jornada começa e onde ela termina.

Um paraíso à beira de se perder

A primeira árvore do filme aparece antes de qualquer tiro. Schofield e Blake descansam sob ela, num momento de trégua que dura pouco. Não é difícil reconhecer ali um eco do Éden: um jardim, uma sombra, dois homens em repouso, ainda sem saber que o mundo ao redor está prestes a se romper. A cena não precisa de diálogo para dizer isso. A árvore já carrega a memória de todo paraíso que a humanidade perdeu, e o espectador que conhece essa memória sente, mesmo sem saber nomear, que aquele repouso é o último antes da queda.

O restante da jornada é uma variação sobre a mesma imagem, agora ferida. Há árvores intactas e árvores estilhaçadas, florestas inteiras reduzidas a palitos enegrecidos contra o céu. A cena do pomar de cerejeiras é talvez a mais eloquente do filme inteiro: os troncos foram cortados pelos alemães em retirada, um ato de destruição sem função militar alguma, puro rancor contra a beleza. E ainda assim as flores continuam ali, teimosamente vivas sobre os troncos caídos, como se a própria natureza se recusasse a aceitar o veredito da guerra. É a imagem mais próxima que o filme chega de uma teologia da esperança: a vida insiste, mesmo quando cortada pela raiz.

Um estranho neste mundo

Há um momento em 1917 que sempre me pega de surpresa, por mais vezes que reveja o filme. Schofield, depois de escapar por pouco de soldados alemães e ser arrastado por uma queda d’água até um rio coalhado de corpos, sobe à margem exausto, sem forças, quase irreconhecível de si mesmo. E encontra, entre árvores queimadas, um pelotão parado em silêncio ao redor de um soldado que canta.

A canção é “Wayfaring Stranger”, um velho hino que fala de um peregrino atravessando um mundo que não é o seu, rumo a uma terra sem dor, sem fome, sem perigo. Não é acaso que a cena aconteça justamente ali, entre árvores mortas, à beira de um rio de cadáveres. É como se, no ponto mais baixo da jornada, o filme parasse por um instante para lembrar o espectador de que aqueles homens, soldados de uma guerra que não escolheram, sempre souberam de si como peregrinos. A carta aos Hebreus fala desses que confessaram ser estrangeiros e peregrinos sobre a terra, buscando uma pátria que ainda não haviam visto. Naquele círculo de homens cansados cantando ao redor de uma fogueira, a teologia deixa de ser abstração e vira gesto: cantar é uma forma de confessar que este mundo em ruínas não é a última palavra.

O descanso sob a árvore

O filme termina como começou: um soldado, uma árvore, um momento de quietude. Mas Schofield que se senta sob essa segunda árvore já não é o mesmo que descansava sob a primeira. Ele atravessou o rio, a escuridão, a perda do companheiro, e cumpriu a missão. Encontrou o irmão de Blake a tempo. E agora, finalmente, pode parar.

É difícil não ler nessa árvore final um contraponto deliberado à primeira. Se o Éden é o paraíso que se perde no começo do filme, a árvore do desfecho ecoa a promessa do Apocalipse, onde a árvore da vida está plantada às margens do rio que corre pela cidade, e suas folhas servem para a cura das nações. Entre uma árvore e outra, Schofield atravessou toda a distância que separa a queda da restauração, ainda que em miniatura, ainda que apenas por um dia de guerra. C. S. Lewis dizia que as histórias que mais nos marcam são as que reconhecem, sob a superfície de qualquer enredo, essa forma antiga: paraíso, exílio e retorno. 1917 talvez não tenha sido escrito com essa intenção. Mas poucos filmes de guerra recentes seguem essa forma com tanta fidelidade, e é justamente por não gritar a mensagem que ela chega com mais força.

O que fica

1917 não precisa ser lido como parábola para funcionar como grande cinema. Funciona pela tensão do plano contínuo, pela urgência do relógio correndo contra mil e seiscentas vidas, pela coragem simples e teimosa de dois soldados jovens demais para a missão que carregam. Mas para quem tem olhos treinados a reconhecer o Éden numa sombra e a Nova Jerusalém num rio, o filme oferece algo a mais: a lembrança de que toda grande história de sobrevivência é, no fundo, uma história sobre o caminho de volta para casa, e de que mesmo em meio ao caos mais completo, a árvore continua de pé, esperando por quem atravessar até o fim.

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